Conceito de heroísmo ontem e hoje
José Fernando
“Todo aquele que der testemunho de mim diante dos homens, o Filho do Homem também dará testemunho dele diante dos anjos de Deus.” (L.c. 12:8-12)
A originalíssima urbe de Chandigarh, também cognominada “A Cidade da Beleza” na Índia que, curiosamente, também tem nomes oficiais de Bharat e Hindustão, se diferencia bastante das demais metrópoles hindus. Localiza-se no Noroeste daquela nação e foi fundada em 1947, após a libertação do domínio Britânico. Com quase dois milhões de habitantes, compõe-se de primoroso design urbano, com admiráveis edifícios, e foi planejada por arquitetos famosos como Pierre Jeanneret, Le Corbusier e o americano Albert Mayer. Seria, para nós, uma “Brasília do Oriente”, com seus quarteirões cuidadosamente planejados, largas avenidas e perfeita arborização, com destaque para a escolha correta das espécies, dos locais de plantio e de sua esmerosa manutenção.
Foi nessa charmosa cidade que, em setembro de 1963, veio ao mundo Neerja Bhanot (1), linda menina que, em um país àquela época, já imensamente populoso, facilmente passaria despercebida e jamais seu nome seria levantado em admiradas reflexões mundo afora. Com sua encantadora beleza, aos 18 anos iniciou carreira de modelo, despontando em encartes de lojas de varejo em toda a Índia, tendo à frente uma promissora carreira em construção.
Não obstante à sua fama iniciante, imaginava-se voando espaço afora, se deslumbrando com paisagens exuberantes, convivendo com a multidiversidade das raças humanas e aprofundando-se no conhecimento de novas culturas. Tomou, por fim, uma nobre e sonhada decisão: dedicar todo o seu tempo para ser uma aeromoça qualificada.
Abandonou as passarelas da fama e nem se deu conta de que, qual um mitológico “Éolo” feminino, acabaria tornando-se também uma guardiã dos ventos, controlando as borrascas e frenéticas tempestades de almas humanas violentas e enlouquecidas. Pertencente a uma família indiana tradicional, teve que aceitar, a contragosto, um casamento arranjado pelos pais. Eles estavam iludidos com um anúncio no jornal local que divulgava o intento de um homem “maravilhoso”, que morava nos Emirados Árabes, e procurava uma moçoila de estirpe. O enlace durou somente dois meses e, em situação incomum ao seu tempo, ela conseguiu se livrar de um marido abusador, que se casou interessado apenas no vultoso dote oferecido, como obrigava a tradição indostana, de seu pai.
Livre do nefando compromisso, Neerja dedicou-se inteiramente aos estudos. Em 1985, aos 22 anos, após ser selecionada pela Pan Am, voou para Miami para realizar o treinamento para a carreira de aeromoça. Escolhida entre quase 10 mil candidatas, assumiu o posto de comissária de bordo na rota Frankfurt-Nova Delhi e, em pouco tempo, tornou-se comissária-chefe.
Como a vida nem sempre se apresenta à feição de um “conto de fadas”, o destino, ou melhor, o determinismo das leis divinas, lhe traçou um percurso jamais imaginado por ela. Na madrugada daquela sexta-feira, 5 de setembro de 1986, ainda bastante entusiasmada com o emprego dos sonhos, confidenciou às colegas seu regozijo por comemorar 23 anos dali a dois dias. Apesar da alegria de sempre, alguém notou algo em sua fisionomia, como se uma nuvem cinzenta turbasse, por instantes, o puro céu azul de seu belo semblante.
Por volta das 6 horas da manhã daquela fatídica sexta-feira, a aeronave, um Boeing 747, que partira de Mumbai com destino a Nova York – e que transportava 361 passageiros e 19 tripulantes – fez uma escala em Karachi, no Paquistão. Neerja Bhanot estava com seu sorriso de “aeromoça”, recebendo os novos passageiros, e eis que sua intuição logo disparou um alarme: quem seriam aqueles quatro homens agitados e de olhares furtivos que subiam a escada de embarque às pressas?
Pressurosa, afastou-se um tanto do local e, antes da decolagem, escutou um grito estentórico de “sequestro, mãos para cima!” Os terroristas faziam parte da Organização Abu Nidal, grupo que defendia a causa palestina, apoiado pela Líbia, o mesmo que, um ano antes, havia sequestrado o voo 648 da EgyptAir, resultando na morte de 60 pessoas.
A intenção dos extremistas era que a aeronave fosse até o Chipre e depois voasse para Israel. Nos dois países, membros da facção que estavam presos seriam recolhidos. O principal pedido era a libertação de seus aliados. Neerja, com extrema rapidez e habilidade, abriu a portinhola da cabine e avisou o perigo iminente aos pilotos. Em tempo recorde, eles conseguiram trancar a cabine e evacuar pela escotilha de fuga do cockpit,deixando o avião sem condições de voo e ainda estacionado na pista. A partir daí, iniciaram horas de apreensão e pavor.
Policiais da elite militar paquistanesa e agentes de segurança do aeroporto cercaram o Boeing e uma longa negociação teve início. O grupo extremista tinha a intenção de identificar e executar todos os 43 passageiros norte-americanos que estavam no voo. Conforme propagou ao vivo a rede indiana de televisão RDTV, foi justamente neste cenário que Neerja Bhanot se tornou uma heroína. Diante do perigo que aumentava gradualmente, ela teve coragem e manteve todos calmos.
Atendendo à imposição dos sequestradores, recolheu os passaportes, escondendo, furtivamente, os documentos dos passageiros americanos sob o assento de um banco e embaixo da rampa de lixo. Em dado instante, Rajesh Kumar, um jovem de 29 anos, sob pressão e inocentemente, se identificou como sendo indiano com cidadania americana. Ele foi arrastado até a porta da aeronave e baleado na cabeça. Seu corpo foi jogado no pátio do aeroporto para mostrar do que o grupo era capaz.
Neste instante de absoluto terror, em que a mente turva, o coração acelera e as pernas tremem, Neerja, em cósmica sintonia, conclama a tripulação a servir sanduíches e refrigerantes a todos, numa impensável atitude de autocontrole, que acabou postergando um previsível massacre. O sequestro já durava 17 horas e a tensão dentro da aeronave ficou ainda maior quando o fornecimento de energia do avião foi cortado. No meio da escuridão, os terroristas passaram a atirar para assustar os passageiros. Durante a confusão, uma granada explodiu, abrindo um buraco na fuselagem da aeronave.
Em pleno caos, Bhanot abriu uma saída de emergência e ajudou os passageiros a fugir. Mesmo já possibilitando a fuga de centenas de passageiros e tripulantes, Neerja não se afastou de seu lugar, se posicionando na frente das últimas pessoas, três crianças. Ela foi alvejada pelos terroristas e, apesar de socorrida, morreu no hospital dois dias antes de completar 23 anos. Os extremistas tentaram escapar, mas foram presos e condenados no Paquistão.
Atos heroicos como este são raros e, frequentemente, sensibilizam e estimulam nossas reflexões acerca da grandeza humana. Eles mostram também como os extremos de sentimentos maléficos/altruísticos aguçam nossa curiosidade, nos levando a buscar entender a força motriz das reações humanas em situações de estresse exagerado.
O conceito mais remoto de “herói” vem da Grécia antiga, na versão do historiador grego Heródoto. Baseia-se no lendário Fidípides, um hemeródromo, termo que corresponde ao que hoje denominamos “carteiro”. Segundo a lenda, Fidípides, no ano 490 a.C., teria corrido os mais ou menos 40 km que separam Atenas da cidade de Maratona para participar da batalha, de mesmo nome, contra os persas. Os atenienses venceram a batalha e os persas recuaram para os seus navios, em direção a Atenas. Com medo de os persas se vingarem contra a cidade desprotegida e desavisada sobre o destino da batalha de Maratona, Fidípides teria retornado, sempre correndo, a Atenas para avisar do êxito na batalha. Após anunciar a vitória ateniense, caiu morto, em consequência da enorme exaustão.
Como resultado do gigantesco esforço, Atenas teve tempo de se organizar, fechar a cidade e passar ilesa ao ataque persa, salvando milhares de pessoas. Como corolário de sua façanha histórica, foi criada a “maratona”, corrida de prova dos 40 km que acontece nas olimpíadas quadrienais.
Os estudos aprofundados da Psicologia elencam as qualidades intrínsecas dos heróis, explicando por que eles se distinguem do vulgo. Consoante reiteradas análises, concluiu-se que estes paladinos do altruísmo são detentores de prodigiosa empatia com o próximo e demonstram intensa coragem diante do perigo. São classificados com um irrepreensível senso de responsabilidade, coroado por um sentimento de obrigação moral, a toda prova. Como se não bastasse, cultivam valores pessoais de um caráter límpido, que transbordam de si ante pressões e desafios sociais.
Desagrada-nos, porém, quando percebemos que o epíteto de “herói” foi pronunciado ou considerado a alguém que não contempla nenhuma das qualidades que a Psicologia tão bem definiu no parágrafo anterior. O conceito tem se tornado comum nas mídias sociais para qualificar heróis como as celebridades ligadas aos esportes e às artes em geral. Manchetes de noticiários publicam, em letras garrafais, que o “fulano de tal” foi o herói do tetra; que o “ciclano”, após um esforço hercúleo e heroico, mereceu subir ao pódio da competição. Nada contra reconhecer e elogiar o empenho e o sacrifício daquele que treinou dias a fio para alcançar, merecidamente, o seu lugar de destaque, mas convenhamos que o verdadeiro herói tem valores que extrapolam os limites físicos, alcançando a esfera moral e sublimando os sentimentos, alçando-os ao panteão da espiritualidade superior.
Evidente está que estas valorosas criaturas que, em horas de excruciantes calamidades, dão suas vidas para salvar a de outrem, são eternamente dignas de louvor, admiração e até veneração por todos nós. O mérito de seus atos é indiscutível. Não obstante este valoroso apreço, há uma classe de heróis cujos atos de grandeza moral não repercutem nas redes sociais, não são motivo de conversas e nem recebem as glórias do mundo, passando incólumes de louvores no interregno do berço ao túmulo.
Emmanuel não se esqueceu desses heróis anônimos (2). O eminente mentor de Francisco Cândido Xavier, ditando uma singela mensagem ao seu mentorado, enfatiza e distingue as excelsas qualidades, aparentemente invisíveis, destes corajosos e intrépidos seres humanos, os heróis ocultos. Diz o abalizado conselheiro:
Reverenciemos, sim, o nome dos que se esqueceram, a benefício dos semelhantes; contudo, não nos será lícito esquecer que existe um heroísmo obscuro, tão autêntico e tão belo quanto aquele que assinala os protagonistas das grandes façanhas, perante a morte — o heroísmo oculto dos que sabem viver, dia por dia, no círculo estreito das próprias obrigações, a despeito dos empecilhos e das provações que os supliciam na estrada comum.
O destemor de nossa heroína Neerja Bhanot foi amplamente reconhecido em homenagens póstumas. Ela foi considerada a mais jovem vencedora do Prêmio Ashok Chakra, alta condecoração indiana por atos de bravura. O Paquistão a agraciou com a honrosa distinção nacional, o Tamgha-e-Insaniyat, pelo seu gesto de bondade humana.
Em entrevista ao jornal One India, uma das crianças que Neerja ajudou, com somente sete anos à época, se tornou capitão de uma grande companhia aérea. Ele confirmou que a comissária foi sua grande inspiração e que deve sua vida aos atos dela.
- https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/personagem/neerja-bhanot.
- XAVIER, Francisco Cândido. Alma e coração. Edição Comemorativa do Centenário do Nascimento de Chico Xavier. 1910-2010, cap. 17 – “Heroísmo oculto”. FEB.

