Astrologia e Espiritismo: há compatibilidade?
Daniel Salomão Silva
A Astrologia, enquanto crença na influência dos astros sobre as vidas humanas, está no imaginário de boa parte das pessoas, justificando características, escolhas e acontecimentos do cotidiano a partir do momento exato de seu nascimento. Ou seja, a disposição dos astros no céu, na hora e no dia em que você nasce, seria determinante em vários fatores da vida. Além disso, a movimentação natural desses astros durante sua existência poderia ou não favorecer certas disposições ou mesmo decisões.
Em sites, mesmo de grandes jornais, colunas inteiras dedicadas ao horóscopo fazem grande sucesso entre os que buscam uma orientação diária. Mesmo entre espíritas, é comum observarmos, em diálogos e publicações, referências aos próprios signos e a seus reflexos em suas características psicológicas. Sem nos voltarmos a textos teóricos sobre a Astrologia, o objetivo desse artigo é apontar correspondências e conflitos com as ideias espíritas, a partir do que encontramos com certa frequência sobre o tema em sites e redes sociais.
Em primeiro lugar, há bases científicas para essas crenças? Até onde pudemos pesquisar, a resposta é não. Nos dias de hoje, realizar pesquisas com milhares de indivíduos sobre os mais diversos temas é cada vez mais factível. Contudo, curiosamente, encontramos poucos estudos que afirmem ou neguem que pessoas de tal ou qual signo tendam a ser mais ansiosas ou desatentas, amorosas ou frias, por exemplo. Um que chamou nossa atenção, em verdade, mostra que a porcentagem de acertos de 152 astrólogos sobre personalidades e mapas astrais de um grupo de pessoas foi praticamente a mesma dos 176 não astrólogos também participantes: muito baixa.1
Como entende Kardec,
O Espiritismo, pois, não estabelece como princípio absoluto senão o que se acha evidentemente demonstrado, ou o que ressalta logicamente da observação. Entendendo com todos os ramos da economia social, aos quais dá o apoio das suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam, desde que hajam assumido o estado de verdades práticas e abandonado o domínio da utopia, sem o que ele se suicidaria.2
Pela pequena quantidade de estudos e por resultados “negativos” como o apontado acima, entendemos que a Astrologia não assume o estado de “verdade prática”, logo o Espiritismo não pode assimilá-la.
Ademais, o Codificador se pronunciou diretamente sobre ela em alguns momentos, destacando que as constelações, sobre cuja posição o Sol temporariamente se projeta durante a translação anual terrestre, e que influenciaram as personalidades, “mais não são do que agregados aparentes, causados pela distância; suas figuras não passam de efeitos de perspectiva”. Logo, “é ilusória a significação que uma supersticiosa crença vulgar lhe atribui e somente na imaginação pode existir”.3 Segundo ele, pela própria perspectiva da Astronomia – essa, sim, uma ciência – devido a um lento movimento do eixo de rotação da Terra, “acontece que os meses já não correspondem às mesmas constelações. Um que nasça no mês de julho já não está no signo do Leão, porém no de Câncer. Cai assim a ideia supersticiosa da influência dos signos”.4 Em outras palavras, a “posição” das constelações do céu muda com o passar dos anos, o que deveria mudar os próprios signos das pessoas.
Entretanto, a despeito de tudo isso, há outras questões que opõem o Espiritismo à Astrologia. Em rápida pesquisa, encontramos na internet algumas informações sobre saúde e características físicas relacionadas aos signos. Por exemplo, aqueles de Capricórnio teriam “nas pernas sua maior força”, enquanto os de Aquário teriam “os pés mais bonitos e úteis em suas vidas”. Os que têm ascendente em Gêmeos “costumam ter rostos alegres e narizes finos”, mas os de ascendente em Touro possuem “rostos arredondados”. Ainda que uma observação simples já desminta essa conclusão, segundo os Espíritos, seria difícil conciliá-la com o entendimento de que pode haver um planejamento encarnatório prévio.
Antes de reencarnar, podemos “escolher o corpo, porquanto as imperfeições que este apresente ainda serão, para o Espírito, provas que lhe auxiliarão o progresso, se vencer os obstáculos que lhe oponha”.5 Logo, para que existisse alguma compatibilidade com a Astrologia, deveria haver também uma determinação prévia do momento exato do nascimento. Só assim certa caraterística ou imperfeição física poderia estar presente, o que não nos parece coerente. A complexidade do corpo físico e a importância de outros fatores, como a hereditariedade, também oferecem barreiras a esse pensamento. O Espiritismo, por outro lado, contempla todos esses fatores, não sendo rígido em sua ideia de planejamento prévio, nem mesmo admitindo-o como sempre presente.6
Cabe salientar que é atribuída ao Espírito Emmanuel uma posição peculiar, quando afirma que “o campo magnético e as conjunções dos planetas influenciam no complexo celular do homem físico, em sua formação orgânica e em seu nascimento na Terra”, ainda que possamos lutar contra qualquer elemento perturbador.7 Logo, se a resposta parece confirmar certa expectativa astrológica, jamais a admite de forma determinista, nem faz referência a signos. Contudo, ainda que respeitável, não encontramos outras comunicações que a corroborem.8
Outro aspecto frequentemente associado ao horóscopo é a personalidade do indivíduo. Por exemplo, os de Peixes “teriam alta inteligência emocional”, mas a natureza emocional de quem tem a Lua em Touro “costuma ser profundamente ligada à segurança material e afetiva”. Isso, inclusive, afetaria possíveis relacionamentos, levando a pensar, por exemplo, que “Câncer e Escorpião são signos de água que se complementam” ou que sagitarianos “se apaixonam com facilidade”.
Entretanto, mesmo que admitíssemos uma influência física dos astros, como comentamos acima, segundo o Espiritismo, “o Espírito dispõe sempre das faculdades que lhe são próprias. Ora, não são os órgãos que dão as faculdades, e sim estas que impulsionam o desenvolvimento dos órgãos”.9 Na mesma direção, a diversidade das aptidões entre os homens deriva das “qualidades do Espírito, que pode ser mais ou menos adiantado”.10 Logo, formas de pensar, sentir e se expressar, ainda que seja inegável que matéria nos influencie,11 são intrínsecas ao Espírito imortal, derivadas de sua bagagem milenar, associadas à educação recebida na atual encarnação, ao ambiente em que se desenvolve, dentre outros fatores, mas não à data de seu nascimento ou à posição dos astros.
Por fim, outro ponto merece atenção: a possível influência dos astros em nossas decisões e em nosso destino. Para alguns, por exemplo, em determinado dia, “os aquarianos terão de dar um passo atrás e evitar se apressar em tomar decisões”, mas os de Virgem “podem ter dificuldades em lidar com superiores muito autoritários ou controladores”. Outros ainda “encontrarão seu grande amor” no mês seguinte. Esse tipo de pensamento, inclusive, nos soa perigoso, pois decisões tomadas com base na Astrologia podem isentar o indivíduo de suas responsabilidades por atribuí-las a uma definição dos astros ou do Universo. Ao contrário, como afirmam os Espíritos, “nunca há fatalidade nos atos da vida moral”.12
Para eles, além do possível planejamento dos eventos mais importantes em nossa encarnação, episódios do cotidiano são “consequências das vossas próprias ações”, e independentemente de quaisquer influências, “resultam do exercício da sua vontade, ou de seu livre-arbítrio”.13 Sugerem ainda que não creiamos “que tudo o que sucede esteja escrito, como costumam dizer”,14 ou que determinadas pessoas teriam um bom destino por nascerem “sob uma boa estrela”15, em referência direta à influência das constelações.
Concluindo, segundo o Espiritismo, características físicas, psicológicas e condições expiatórias são de responsabilidade do próprio Espírito, seja por decisões, planejamentos, experiências ou ações em sua jornada evolutiva. Mesmo influências genéticas, ambientais ou sociais não são frutos do acaso. Ademais, não há expectativa de um “destino” rígido, pois sempre temos livre-arbítrio. Tudo isso tem embasamento filosófico e amparo pelo Controle Universal do Ensino do Espíritos.
Para a Astrologia, porém, esses fatores são determinados ou pelo menos influenciados pela posição dos astros, o que não possui embasamento científico, nem filosófico, nem concordância entre os Espíritos. Logo, sob o ponto de vista espírita, já temos o suficiente para rejeitá-la.
Contudo, permitindo ainda uma concessão, a correspondência entre Espiritismo e Astrologia só poderia ocorrer se o planejamento do momento exato de nascimento de cada indivíduo estivesse calculado em acordo com seu planejamento encarnatório. Por exemplo, se pretendo encarar certas questões de saúde ou desenvolver minha paciência em determinada vida, devo escolher exatamente o dia da fecundação, o tempo de gestação e mesmo a hora exata do parto, lembrando ainda que cada decisão dessas envolve várias pessoas. Dada a quantidade de detalhes em nossa psicologia e em nossa constituição física, as expectativas da Astrologia não nos parecem consistentes.
1 CLEARERTHINKING.ORG. Clearer Thinking’s Study: Can astrologers truly gain insights about people from entire astrological charts? Disponível em <clearerthinking.org/post/can-astrologers-use-astrological-charts-to-understand-people-s-character-and-lives-our-new-study-pu>. Acesso em 27 de abril de 2025.
2 KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2009, c. 1, i. 55.
3 Idem, c. 5, i. 12.
4 Idem, c. 9, i. 7, rodapé.
5 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2010, q. 335.
6 Idem, q. 259.
7 XAVIER, Francisco C. O consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 26. ed., Rio de Janeiro: FEB, 2006, q. 140.
8 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2010, introdução, II.
9 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2010, q. 370.
10 Idem, q. 370a.
11 Idem, q. 846; KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos, ano XII, 1869 (março). Catanduva, SP: Edicel, 2016.
12 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2010, q. 872.
13 Idem, q. 259.
14 Idem, q. 859a.
15 Idem, q. 867.

