FEABE: 64 anos
Daniel Salomão Silva
(Grato a Jovino Quintela pela busca das atas e à Casa Espírita por disponibilizá-las)
No dia 21 de outubro de 2026, a Fundação Espírita Aurílio Braga Esteves comemora 64 anos de funcionamento autônomo. Nesse breve texto, apresentamos a primeira parte dessa história a partir de atas de reuniões, registros oficiais e da própria revista O Médium, que testemunham esforços em prol da caridade e da divulgação espírita.
Como mostra ata da Assembleia Geral Ordinária (AGO) da Casa Espírita1 de 26 de maio de 1951, a instituição já possuía um departamento, a Merenda Escolar Aurílio Braga Esteves, depois Tenda Aurílio Braga Esteves, cuja finalidade era “o amparo à criança pobre”, realizando “distribuição de donativos e roupas duas vezes durante o ano”. Conforme ata de 26 de maio de 1952, esses donativos também incluíam “guloseimas” e eram distribuídos na própria Casa Espírita. A ata de 26 de maio de 1955 documenta, ainda, o envio desse auxílio às cidades de São Paulo, Rio Pomba, Guarani, Rio Novo etc.
Embora uma breve pesquisa indique mais de um significado para a palavra “tenda” em meados do século XX, parece-nos ter sido usada aqui para se referir a uma oficina de trabalhos manuais, que possivelmente produzia parte do que era doado.2 Já o nome Aurílio Braga Esteves decorre de homenagem a um familiar de trabalhadores da Casa Espírita. Seu nome também foi dado a um grupo de teatro da mesma instituição. Encontramos uma referência à sua desencarnação (17 de janeiro de 1947) na primeira edição do mesmo ano da revista O Médium.3 Nesse texto, são citadas sua mãe Firmina Braga Esteves (d. Nenê) e sua tia Calliope Braga de Miranda (d. Zuzu), então presidente da Casa Espírita. Outros “Braga” e “Esteves” são muito presentes nas atas da época.
Embora não tenhamos encontrado registro anterior, tudo indica que esse setor já funcionava há certo tempo na própria Casa Espírita. Pela data de desencarnação de Aurílio, imaginamos que tenha surgido após 1947, pelo menos com o nome que apontamos. A ata de 26 de maio de 1953, além da prestação de contas anual da “Tenda”, registra um “movimento crescente” em suas atividades. Talvez por isso, na ata do ano seguinte, consta a doação de um terreno ao setor, localizado no bairro São Pedro: “no futuro, se Deus quiser, será nele construído um Centro que se denominará Tenda Aurylio4 Braga Esteves”.
Embora na ata o doador seja identificado como Guilherme Schaeffer, em registro oficial no Tabelionato Viana Jr. constam o casal Curea e Dora Maria Eftinie como proprietários do terreno doado em 1955.5 Tanto esse documento quanto a ata da AGO da Casa Espírita de maio de 1957 informam que sua localidade não era o bairro São Pedro, mas o bairro Borboleta, à época chamado Vila de São Vicente de Paulo. Como esses bairros eram ainda pequenos e próximos, o equívoco é compreensível.
Essa ata registra também o início da construção do centro. Conforme a revista O Médium de abril de 1957, “a Casa Espírita programou para o corrente ano a inauguração no bairro Borboleta do 1º posto da Tenda Aurílio Braga Esteves, compreendendo uma escola primária, um ambulatório, além de sessões para o estudo das obras espíritas”. É ainda declarada a intenção de abertura de um segundo posto no bairro Grama, do qual não temos mais informações.
Na ata de maio de 1958, vemos pela primeira vez o nome Fundação Aurylio Braga Esteves, que ainda estava em construção, logo não havia sido inaugurada como previsto em 1957. São destacados por seus esforços os nomes Atanalpa Alves, Cristovam de Almeida e Onofre Rodrigues de Oliveira, este último o primeiro presidente da Fundação. Interessante é que a mudança oficial de denominação social de Tenda para Fundação Espírita Aurílio Braga Esteves só seria oficializada em 2012, conforme registro de imóveis do cartório Olavo Costa.6
Atendendo a anterior pedido de Calliope Braga de Miranda, já ex-presidente da Casa Espírita, a proposta de desligamento dos setores Fundação João de Freitas e Fundação Aurílio Braga Esteves aparece na ata de 21 de outubro de 1962. Após votação, a maioria decidiu pelo desmembramento, na data em que é atualmente comemorado o aniversário da FEABE. Na própria ata é apresentado um novo estatuto da Casa Espírita, cujo artigo 28 ratifica essa decisão. Sua autonomia foi também atestada em registro no cartório Laura Figueiredo anos depois.7
A última ata em que encontramos referência à já autônoma FEABE é a de 2 de junho de 1963. Contudo, o presidente da época ressaltou que seu estatuto próprio ainda não estava registrado e que, por isso, seu patrimônio ainda pertencia à Casa Espírita. Interessante é sua defesa da reintegração da edificação da FEABE, que, para ele, deveria ser vendida para arrecadação de fundos para reforma da Casa Espírita. Como a assembleia não apoiou sua proposta, a jovem FEABE continuou a existir. Para oficializar sua independência, seu presidente Onofre Rodrigues de Oliveira registrou, em 21 de maio de 1964,8 seu primeiro estatuto e sua primeira ata de Assembleia Geral Ordinária (em 27 de fevereiro de 1964), que elegeu sua primeira diretoria autônoma. Aqui termina nossa primeira investigação.
Dado seu valor histórico, esperamos que esse tipo de pesquisa se multiplique. Nas próprias atas da Casa Espírita que investigamos, encontramos nomes que teriam mais importância no futuro, muitas informações sobre a Mocidade Espírita Dias da Cruz e a Fundação Espírita João de Freitas, dentre outras instituições e iniciativas ainda sobreviventes. Por tudo isso, sugerimos fortemente a todos os centros espíritas que esse tipo de documento seja bem conservado, digitalizado e disponibilizado para consulta pública eletrônica. Compõem excelente material de pesquisa, registrando a história do Movimento Espírita.
De lá para cá, muita coisa mudou na Fundação. Cabe a nós pesquisar nas atas da então independente FEABE o desenrolar da história. Não sabemos ainda até quando a escola primária ou o ambulatório funcionarão, mas o caráter assistencial e de divulgação do Espiritismo certamente permanecerá. Toda a pesquisa, porém, já é muito motivadora. Sabemos que o trabalho começou muito antes de nós e que deve prosseguir a partir dos exemplos desses primeiros trabalhadores. Quem chega e vê a FEABE ampliada e organizada dos dias de hoje não imagina o esforço que devem ter despendido. Somos muito gratos a todos eles.
Parabéns, FEABE, pelos seus 64 anos!
O médium – Abril de 1957 (https://omedium.amejf.org.br/)
1 “Casa Espírita” é o nome de um importante centro espírita já centenário, situado na rua Sampaio, no 425, no centro de Juiz de Fora, MG.
2 Não há nenhum elemento que indique relação com terreiros de Umbanda ou Candomblé, que algumas vezes usam a palavra “tenda” para denominá-los.
3 Todas as edições da revista se encontram no site https://omedium.amejf.org.br/.
4 Nas referências, o nome é ora registrado com “i”, ora com “y”.
5 Em 17 de maio de 1955, nas folhas no 064-V do livro no 265, conforme certidão do Tabelionato Viana Jr. de 21 de outubro de 2013.
6 Ficha 2653 (matrícula).
7 Em 06 de novembro de 1978.
8 Certidão 590, livro A1, fls 0, do cartório Lucy de Figueiredo Hargreaves.
O médium – Abril de 1957 (https://omedium.amejf.org.br/)

- O médium – janeiro/fevereiro de 1947 (https://omedium.amejf.org.br/)

– Extrato da ata de 26 de maio de 1951

– Extrato da ata de 21 de outubro de 1962


