A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo – Parte II
Awen Abred
Método e ordem das matérias no Programa da Doutrina
No artigo anterior (edição 770), apresentamos os conteúdos e partes da obra da codificação intitulada A Gênese segundo o Espiritismo. Antes de prosseguir com a leitura, aconselhamos os leitores que comecem por lá. Aqui, continuaremos os nossos estudos apresentando a ordem das matérias de A Gênese. Entretanto, nem todos os capítulos serão discutidos por agora. Eles serão descritos em outros artigos.
II. Cosmogênese, Geogênese e Biogênese Espirituais e Matérias: A Gênese Mosaica reconstituída segundo as Leis da Natureza
Nos capítulos VII, VIII e IX, respectivamente intitulados “Esboço geológico da Terra” (Esquisse geologique de la Terre), “Teorias sobre a formação da Terra” e “Revoluções do Globo”, Kardec apresenta, de forma precisa e enciclopédica, os princípios1 e hipóteses2 elaborados pela Ciência Material sobre as causas primárias que fundamentaram a origem da Terra. Neles, o codificador revela seu profundo interesse pela Geologia, que passa a ser chamada para constituir a verdadeira gênese da Terra. Diversos pontos deixados em aberto em O Livro dos Espíritos são, nessa oportunidade, aprofundados.
O primeiro passo foi apresentar os elementos da Geologia Histórica, isto é, os princípios e hipóteses referentes aos períodos geológicos, fundamentados nos estudos dos fósseis e atualmente aceitos com base na Geologia Nuclear. Os capítulos VIII e IX tratam, com base no esboço geológico, respectivamente, do estado passado da Terra (chamado pelos cientistas “período azoico”) e do estado presente e futuro da Terra. O primeiro intitula-se “Teorias sobre a formação da Terra” e o segundo, “Revoluções do Globo”.
No que se refere a esses estados, Kardec apresenta, no primeiro, o estado passado da Terra, durante sua formação; neste caso, mostra alguns princípios da Geologia, bem como hipóteses correspondentes às teorias sobre a formação de nosso globo. Obviamente, ele apresentou os sistemas hipotéticos em voga em sua época. Kardec opta, no item 3, pela Teoria da Condensação da Matéria Cósmica, por estar de acordo com o princípio uranográfico de unidade universal na variedade universal (formulado pelo Espírito de Galileu via Camille Flamarion, como o brasão do Universo); por ser aceita pela maioria dos geólogos de sua época e pelo fato de que a hipótese da condensação está de acordo com a experiência e a razão.
No terreno da Ciência Oficial, na medida em que esta experimenta a matéria, o Espiritismo, ou Ciência Espírita, devia aceitar plenamente os princípios desta ou daquela ciência. Obviamente, o Espiritismo ainda deve se interessar por semelhante questão, dado que a origem do planeta ainda é um problema para a Ciência de hoje.
Nos outros estados da Terra, relativos ao atual, Kardec apresenta os princípios e hipóteses da Geologia sobre as modificações atuais e futuras do orbe.
Neste capítulo IX, a questão do dilúvio universal é tratada com as ferramentas da Geologia. A questão está em O Livro dos Espíritos (item 6, subitem 59 do 3º capítulo, da 1ª parte), em que Kardec faz uma refutação do sentido literal prestado ao dilúvio bíblico mencionado e descrito por Moisés. Reconsidera, contudo, o tema colocado por Moisés, por meio do sentido figurado, para fazer com que a Ciência seja chamada a reconstituí-lo, de acordo com as leis da Natureza. Apresenta, então, duas hipóteses científicas sobre o dilúvio bíblico e a conclusão geral, perfeitamente inteligível para o cientista e o filósofo, de que o dilúvio bíblico não foi universal, mas, sim, parcialmente periódico.
Consideremos, agora, o capítulo X, que se trata da Gênese Orgânica ou Biogênese. Tal parte é um aprofundamento dos capítulos III e IV na 1ª parte de O Livro dos Espíritos e do capítulo IX, na 2ª parte, intitulados “Da Criação Primária”, “Do Princípio Vital” e “Dos Três Reinos”. A grande questão é a origem da vida segundo os princípios e hipóteses levantados pela Ciência Material – no caso a Biologia de então – ainda nascente. Os sistemas discutidos na época de Kardec, ainda em estado de hipóteses empíricas, eram sistemas vitalistas, segundo os quais um ser, para se tornar vivo, deveria ser acrescido de um princípio não encontrado em sua organização puramente material: o princípio vital.
A Doutrina do Vitalismo era aceita e defendida por muitos cientistas do século XIX e início do século XX. No que tange a um problema mais específico sobre a origem da vida, o da origem das espécies de seres vivos, dois sistemas se confrontavam: o de Aristóteles, referente à hipótese de que os seres vivos (a vida em geral) surgem por geração espontânea3; e outro sistema, posteriormente consagrado pela Ciência do século XX, o sistema evolucionista de Darwin-Lamarck-Wallace. Tal sistema afirma que os seres vivos surgiram a partir de espécies mais simples, por meio de uma lei natural, denominada seleção natural, que caracteriza a origem evolutiva das espécies.
A polêmica “Vitalismo versus Criacionismo”, levantada pelas hipóteses de Lamarck-Darwin-Wallace (hoje reconhecidas como princípios constatados pela maioria da comunidade científica), não ficou à parte nas considerações do mestre de Lyon, que coloca a solução oferecida pela da Doutrina dos Espíritos, ao discutir o problema intrincado, tanto para a Biologia Genética como para a Antropologia Naturalista, da origem da espécie humana. O leitor interessado verá que Kardec, junto aos Espíritos Superiores, encontrou um meio-termo sábio para a questão, sendo consistente com a Ciência Material e com o ensino coletivo dos Espíritos Superiores.
No próximo artigo, apresentaremos a ordem das matérias das subpartes da Codificação intituladas “Os milagres segundo o Espiritismo” e as “Predições segundo o Espiritismo”. Na conclusão, aventaremos algumas relações desta importante obra com o livro Obras Póstumas, especificamente com a constituição transitória do Espiritismo.
[1] Kardec utiliza a palavra ‘princípio’ para se referir a uma proposição verdadeira em uma doutrina, cuja veracidade foi comprovada por meio da experiência, de uma verificação empírica universal.
[2] Kardec utiliza a palavra ‘hipótese’ para se referir a uma proposição em um sistema científico, filosófico ou religioso, cuja veracidade ou falsidade não foram comprovadas universalmente pela experiência, e que por isso, deve passar pelo teste da verificação universal. Assim, se uma proposição hipotética passa pela verificação universal, então ela se converte em um princípio doutrinário. Se não, deve continuar a ser discutida e experimentada dentro de um sistema teórico, mas nunca como proposição doutrinal. As hipóteses de um sistema nunca podem ser generalizadas. Para um exemplo sobre a noção de sistema, consultar a RE de 1860, EDICEL, p. 211-12 , em que Kardec discute o sistema de fisiognomia de Lavater.
[3] Não temos espaço aqui para tratar das investigações de Kardec sobre o sistema da geração espontânea, sistema este que o mestre de Lyon não abandonou completamente, dada sua compatibilidade com a Doutrina dos Espíritos. A Ciência Oficial, contudo, parece ter, no século XX, rejeitado completamente qualquer premissa vitalista, aceitando as hipóteses de seleção natural da Teoria da Evolução de Darwin-Lamarck, hoje aceitas como princípios integrantes da grande teoria biológica, conhecida com Teoria Sintética. Noutra oportunidade, trataremos mais particularmente da inserção da Teoria Sintética na Doutrina dos Espíritos, no terreno da matéria.

