Enfrentando o etarismo
José Fernando
“… mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia.”
Paulo 2 – Coríntios 4:16
Cenas do cotidiano: fila de elevador. Quatro jovens à frente, com olhos vidrados em seus celulares, dois idosos atrás deles. Abre-se a porta do elevador. Todos saem e os jovens rapidamente entram, ainda de olho em seus celulares. Ao chegar a vez do idoso, a porta vai se fechando rapidamente e empurra para fora o senhor que, assustado, quase cai, porque nenhum dos moços, que entraram primeiro, se dignaram a segurá-la.
Outra cena comum: passeio no shopping. Certa senhora, caminhando com dificuldade devido a atrozes dores na coluna, se encaminha para assentar-se em um daqueles espaços de relaxamento, com poltronas situadas no centro do corredor. Ao chegar, constata que todas estão ocupadas por jovens assentados de maneira despojada, alguns no celular, outros namorando. A senhora se detém em frente de uma das poltronas, olha para os ocupantes e aguarda em pé. Eles, indiferentes, percebem, mas nada fazem. Ela desiste e sai arrastando a sua dor.
Essa é a situação na qual vivem as criaturas que, segundo elas mesmas, já viraram “o cabo da boa esperança”. Uma palavra tornou-se recorrente para retratar esta situação, o chamado “etarismo”. O dicionário nos explica que “etarismo é a discriminação baseada na idade, que se manifesta como preconceito, estereótipos e discriminação contra pessoas pela sua idade, podendo afetar tanto jovens como idosos, mas sendo mais associado à discriminação contra os mais velhos.” Este preconceito se reflete no ambiente de trabalho, nas questões ligadas à saúde e à vida social, podendo gerar consequências negativas, como exclusão e problemas de saúde mental. Coisa dos tempos ditos “modernos”.
E pensar que os idosos já foram muito mais valorizados! Voltemos à época do Império Romano! O Senado Romano era um conselho de “anciãos” formado pelos chefes das famílias patrícias (os pater famílias). O cargo era vitalício, o que conferia grande poder e prestígio. Com o tempo, outros grupos de idosos, como membros ricos de outras famílias e ex-magistrados, também passaram a integrar o Senado, especialmente durante a República.
Eles eram a autoridade máxima, aos quais até mesmo o Imperador recorria em busca de aconselhamento para suas decisões. Aliás, a palavra “senador”, hoje um pouco desgastada, tem origem no latim senator, que, por sua vez, deriva de senex, que significa “homem velho” ou “ancião”.
Outra referência à Roma Antiga nos surpreende. Quando os bárbaros desceram em hordas destruidoras a partir do norte da Europa e invadiram o Império Romano, a maior preocupação das autoridades era de evacuar primeiro os senadores e demais anciãos e, só depois, mulheres jovens e crianças, permanecendo os homens para defenderem as cidades. Isto ocorria para garantir que a experiência e a cultura dos longevos não se perdessem no tempo.
Mas, retornemos à nossa época. Será que existe lugar no mundo onde os idosos sejam bem tratados? Felizmente sim.(1) O escritor e pesquisador da National Geographic, Dan Buettner, em seu memorável livro Zonas Azuis, investigou a vida dos idosos em várias partes do mundo e encontrou, após inúmeras viagens e longa pesquisa, lugares onde se pode chegar aos 100 anos com saúde e disposição. Buettner classificou estas localidades como “zonas azuis”, identificando as seguintes regiões: Sardenha (Itália), Ikaria (Grécia), Okinawa (Japão), Nicoya (Costa Rica) e Loma Linda (Estados Unidos). Em seu livro, levado às telas em série documental da Netflix, ele acompanhou o cotidiano dos moradores destes locais, compartilhando dicas de exercícios, dietas específicas e maneiras de convivência social para uma velhice prazerosa e saudável.
Para o nosso regozijo, no Brasil, as autoridades começaram a se preocupar em dirimir as agruras da senectude quando, há tempos, foi sancionado o Estatuto do Idoso. Mais recentemente, em 25 de junho de 2025, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado Federal aprovou o PL 3.332/2023, que considera crime para bancos, instituições financeiras e correspondentes recusarem crédito com fundamento apenas em razão da idade, deficiência ou condição clínica do idoso. Também proíbe que instituições financeiras cobrem juros maiores, exijam garantias adicionais ou imponham condições mais severas a idosos, quando não houver justificativa técnica ou financeira comprovada. Pena que, por enquanto, é apenas um projeto de lei.
Felizmente, as sociedades democráticas, mais adiantadas, já começaram a atender as expectativas da população sênior, criando programas que os incentivem ao convívio em grupos afins, mesclando divertimento, exercícios físicos e estímulo ao apuro de suas faculdades artísticas e culturais. Percebe-se que um agrupamento humano está evoluindo quando suas ações repercutem os ensinamentos dos nobres Espíritos da Codificação que, ao responderem Kardec, disseram: “o forte deve trabalhar para o fraco. Não tendo este, família, a sociedade deve fazer as vezes desta. É a lei de caridade.”(2)
Talvez ainda falte conscientizar tantos e tantas que vale a pena relembrar as falas de Fernanda Montenegro: “esta palavra ‘velha’, há!! Deveriam inventar outra! Porque ela já vem contaminada de coisas como a decadência, a finitude. Porém, os velhos são produtivos, apesar de terem uma sociedade que só cultua o novo.”
E, Casimiro Cunha, em sua poesia “Carta aos Velhos”(3) – título este que, se ele vivesse hoje, acreditamos que o mudaria –, nos conduz a melancólicas, mas profundas e esperançosas reflexões alicerçadas nos postulados sagrados de nossa amada Doutrina, e que leremos a seguir:
Vens de longe no caminho,
Exausto de combater.
Sim, meu irmão, a velhice
É a hora do entardecer.Por vezes, é uma hora triste
De amargurosas lembranças
Do barco em que viajavas,
Entre sonhos e esperanças.Da culminância do monte,
Examinas a paisagem,
E deploras os desvios
De quem começa a viagem.Às vezes te calas, triste.
Ninguém te quer atender,
E choras porque conheces
Os tóxicos do prazer.Mas nunca te desanimes.
Prossegue em tua missão,
Continua esclarecendo
O mundo de provação.Não desesperes, porquanto
Antigamente também
Eras chamado à verdade
E não ouviste a ninguém.Quebraste serros e atalhos,
Sem olhar a consequência.
Sofreste muito e ganhaste
O ouro da experiência.Perdoa. Quem viveu muito
Tem muita compreensão.
Compreensão é bondade
Que esclarece com perdão.Meninos, moços e velhos,
Nas lutas da humanidade,
São três expressões ligeiras
De um dia da eternidade.Meninice e juventude
São a alvorada louçã.
Velhice é a noite, porém,
O dia volta amanhã.O que é preciso no mundo
De prova e de sofrimento
É que todos sejam velhos
Nas luzes do entendimento.Por isso, meu santo amigo,
Não te canses em saber,
Se tens muito que ensinar,
Inda tens muito a aprender.Conserva a tua esperança.
Guarda a paz do Mestre Amado.
A crença na tua noite
É um firmamento estrelado.Na antecâmara do Além,
Deus te abençoe, meu irmão,
Dilatando no caminho
A luz do teu coração.
UETTNER, Dan. Zonas Azuis da Felicidade: lições das pessoas mais felizes do planeta. Editora nVersos, 01/07/2019.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Edição Histórica, 93ª ed., Brasília. FEB, 2017, questão 685 (a), pág. 318.
XAVIER, Chico. Parnaso de além-túmulo. Poeta fluminense, Casimiro Cunha (1880-1914).

