Suicídio amoníaco: retrato do desregramento social
José Fernando
“Todo o reino, dividido contra si mesmo, será assolado; e uma casa, dividida contra a própria casa; cairá.”
Lucas 11:17
A noite de 13 de dezembro de 2024 prometia estranhos augúrios. Seria daquelas noites inquietantes, em que a maioria dos moradores de Brasília preferiria acomodar-se em casa, após um dia estafante e, preguiçosamente, assentar-se numa poltrona, descansando os pés sobre a mesinha de centro, para colocar em dia suas conversas esquecidas, temporariamente, no WhatsApp, ou mesmo, tomar uma cremosa xícara de chocolate, enquanto assistiria à série do momento em seu streaming preferido.
O serviço de meteorologia já avisara de antemão que a temperatura seria de 20° graus, com ventos a uma velocidade de 1.54km/h vindos do Nordeste e com índice de umidade de 88%, incomum naquela cidade acostumada a longos períodos de seca. Mesmo assim, contrariando a tendência coletiva natural, certo cidadão desloca-se em direção à Praça dos Três Poderes, em meio a uma garoa fina e gélida, sendo sua presença logo detectada pelas câmeras de segurança do local, pois se apresentava excitado, em atitude assaz suspeita. Anda de um lado para o outro e, lá pelas 19h30, como se estivesse teleguiado por força íntima incoercível, retira de sua mochila um artefato explosivo e direciona-o para um dos prédios ao seu redor. Estrondos foram ouvidos por quem passava pela esplanada. Alguns segundos depois, conforme consoante depoimento da vigilância de plantão, dito cidadão deitou-se no chão, colocou um artefato debaixo de sua própria cabeça e acionou um controle remoto com a mão direita, permitindo a explosão de uma bomba de manipulação caseira, o que o levou imediatamente a óbito.
Perplexos como estamos diante de tantos crimes irracionais e de incessante bombardeio de notícias assustadoras a pipocarem aqui e ali, muitas delas mentirosas, não obstante travestidas de uma pseudo-realidade e com capacidade de incendiar os ânimos das multidões, nos questionamos: como compreender, à luz da razão, atitudes como a deste infausto indivíduo?
Para nos ajudar a aclarar as ideias, não poderíamos deixar de recorrer à contribuição de estudiosos do passado, que dedicaram suas vidas a entender o mecanismo que dirige as transformações sociais de ontem que ainda repercutem na atualidade. David Émile Durkheim, sociólogo, cientista político e filósofo francês, considerado o pai da Sociologia, legou-nos relevante trabalho acerca do flagelo do autocídio que, em todas as eras, assolou a Humanidade. Discípulo direto de Auguste Comte, ambos representaram bem a tradição francesa racionalista do século XIX, da qual também a Doutrina Espírita fez parte. Auguste Comte estabeleceu a chamada Física Social, aprimorada depois pela ciência sociológica desenvolvida por Durkheim.
Émile, em analogia, comparou a sociedade ao corpo humano funcional, sistêmico. Segundo ele, como em nossa estrutura física, quando uma parte da sociedade está doente, a patologia atinge também os outros órgãos sociais. (1) Em seu consagrado livro O Suicídio, utilizando o método científico de análise das estatísticas dos eventos sociais, chega à conclusão da existência de três fatores predominantes nas sociedades humanas que incitam as tomadas de decisões de autocídios individuais. Analisando as taxas de suicídio em diferentes comunidades, Durkheim chancelou três tipos de ocorrência de autodestruição: o suicídio egoísta, o altruísta e o suicídio anômico.
O autocídio egoísta dá-se na desintegração social, isto é, o indivíduo passa por sérios problemas familiares ou amorosos, vai ficando melancólico e entende que não faz mais parte daquele núcleo familiar ou de seu círculo de amizade. Já no suicídio altruísta, o indivíduo entende o contrário. Ele coloca a sociedade ou sua ideologia acima mesmo da própria vida, dando mais valor à sua fé, à sua crença e ao seu grupo de relacionamento. Como exemplo, podemos lembrar dos suicídios coletivos incitados por gurus ou religiosos radicais, como também os pilotos kamikazes japoneses, que jogavam seus aviões sobre os alvos inimigos durante a Segunda Grande Guerra.
Para a análise mais aprofundada do caso ocorrido em Brasília, acima narrado, pode parecer que ele não se deu por egoísmo, nem por altruísmo. Aliás, a ideia de altruísmo exposta em O Livro dos Espíritos difere da teoria de Durkheim, que iremos relacionar ao final. Na verdade, a morte de nosso infortunado personagem se enquadra mais na tese do suicídio anômico. Este vocábulo vem da palavra “anomia”, que deriva do grego “nomos” (norma-lei) e do prefixo “a” (não), significando uma ausência de normas ou regras. Conforme Émile Durkheim, este modelo de autoextermínio ocorre com frequência em épocas de grandes ebulições sociais, em momentos de queda de confiança dos indivíduos nas instituições e quando a sociedade perde a coesão, o que ocasiona rupturas que polarizam as ideias e conceitos costumeiros.
Como sobreviver numa sociedade cujos princípios antes inabaláveis, alicerçados em comportamentos ditos sadios e seguros, agora oscilam entre polos negativos e positivos, confundindo os menos avisados quanto à intenção daqueles que se autointitulam representantes e condutores dos interesses coletivos? Felizmente, podemos nos socorrer mais uma vez na estrutura inabalável de nossa amada Doutrina, seguindo o aconselhamento firme e claro de André Luiz. (2) No livro Conduta Espírita, ao se referir aos embates políticos que, vez ou outra, por força dos compromissos que temos que testemunhar como cidadãos, André Luiz expõe um raciocínio límpido e conciso ao nos legar duas singelas e objetivas frases: “distanciar-se do partidarismo extremado” e “paixão em campo, sombra em torno”.
Cabe-nos também nos precaver contra as falas perniciosas daqueles que tentam convencer a todos com argumentações sofismáticas, quando meias verdades proliferam. Em épocas em que se misturam a verdade e a mentira, estejamos atentos para não nos inebriarmos com o “canto das sereias”, embevecidos por palavras bonitas que dizem resolver tudo pela força, que prometem coisas que não serão capazes de cumprir, que falam de paz e fomentam a discórdia, que carregam preconceitos e discriminam os que não lhes seguem os passos.
O alerta do Cristo ecoa em tempos como os que vivemos agora, pois os falsos cristos e falsos profetas abundam nesta grave hora da transição planetária. Como sabemos que o acaso não existe, a frase atribuída a São Francisco de Sales “floresça onde foste plantado”cabe em nossas reflexões, tendo em vista que jamais devemos fugir das lutas e serviços de cada dia, onde quer que estejamos. A sociedade que nos acolhe hoje, pacífica ou conturbada, equilibrada ou anárquica, é aquela que ajudamos a formar no decorrer dos séculos.
Para concluir, recordemos que o suicídio altruísta, na visão dos Espíritos nobres, diferente da tese de Émile Durkheim, ficou bem explicado nos comentários que Allan Kardec escreveu na questão 951 de O Livro dos Espíritos:
“Ora, sendo a vida o bem terreno a que maior apreço dá o homem, não comete atentado o que a ela renuncia pelo bem de seus semelhantes: cumpre um sacrifício; mas, antes de o cumprir, deve refletir sobre se sua vida não será mais útil do que sua morte.” (3)
Dentre inúmeros exemplos de suicídio altruísta, temos um fato ocorrido durante a Segunda Guerra, no campo de concentração nazista de Dachau, no sul da Alemanha. Um prisioneiro judeu havia escapado inexplicavelmente do campo e o subcomandante Karl Fritsch determinou que dez reclusos teriam de morrer de fome como represália. Franciszek Gajowniczek, sargento da polícia e partisan da resistência polaca contra os nazistas, foi um deles. Ao receber a sentença de morte, lamuriou-se com os demais, dizendo que era pai de família, com esposa e filhos. Ouvindo as lamentações, outro prisioneiro, o sacerdote católico Maximiliano Kolbe, ofereceu-se aos oficiais nazistas para morrer em seu lugar. O pedido foi aceito pelas autoridades. Após 14 dias, dos dez, apenas quatro ficaram vivos, inclusive o padre Maximiliano. Então, os guardas decidiram abreviar sua agonia com uma injeção letal de ácido fênico. Era o dia 14 de agosto de 1941.
Dias após, o sargento Franciszek Gajowniczek foi transferido para Auschwitz, sendo libertado quatro anos mais tarde. Gajowniczek viveu por muitos anos e sua última aparição pública deu-se em Roma, no dia 10 de outubro de 1982, quando foi convidado pelo Papa João Paulo II para participar da cerimônia de canonização do agora São Maximiliano Maria Kolbe.
- DURKHEIM, Émile. O Suicídio. Editora Martin Claret, 2005.
- VIEIRA, Waldo. Conduta Espírita. Pelo Espírito André Luiz. FEB, 16ª edição, pág. 46.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Edição Histórica. FEB, questão 951, pág. 426.

