A lâmpada de Kardec
Afonso Carlos Reis Fioravante
As seguintes passagens estão registradas no Evangelho de João, no capítulo 20: “Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, disse-lhe: Raboni. Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos que vira Jesus”.
“Disseram-lhe, pois, os outros discípulos: vimos o Senhor. Mas ele lhes disse: se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei”.
Maria Madalena e Tomé são dois extremos no exercício da fé. E nós? Temos sido mais Maria ou mais Tomé, com relação aos textos evangélicos, ao ensino dos Espíritos e às obras subsidiárias? Afinal, temos praticados a fé cega ou a fé raciocinada?
Ao longo da nossa reencarnação, recebemos muita informação, principalmente agora com a internet e as redes sociais, mas a maioria de nós não tem conseguido transformar essas informações em conhecimento e conhecimento em sabedoria.
A informação é a matéria bruta, dados brutos. Já o conhecimento é a compreensão e organização dessas informações, fase importante para o exercício da fé raciocinada. A sabedoria, por sua vez, é a aplicação dos conhecimentos úteis e selecionados, de forma sensata e ética, levando à tomada de decisões ponderadas para o nosso crescimento espiritual.
As informações dos Evangelhos e da Doutrina Espírita são faróis a nos guiar, mas o trabalho da nossa transformação é principalmente nosso e intransferível, convertendo as maravilhosas orientações espirituais em sabedoria. Mas, para isso, é preciso estudar e apresentar dúvidas, pois ninguém consegue um grau maior de entendimento sem alguma incerteza.
Sem a benção da dúvida, só nos resta a fé cega. Muitas vezes, achamos que entendemos algo, mas ao sermos questionados sobre isso, percebemos que ainda não conseguimos explicar. Assim despertamos a dúvida. Mas o que é a dúvida? É uma condição psicológica ou um sentimento caracterizado pela ausência de certeza, de convicção, com relação a uma ideia.
Dessa forma, todo método científico é motivado pela dúvida. Sem a dúvida não existiria o progresso científico. Se Kardec não tivesse externado suas mais profundas dúvidas filosóficas, não teríamos a benção da Doutrina Espírita codificada por ele, mas talvez por outra pessoa.
Na maioria das religiões, a dúvida é combatida, de modo que haja credulidade sem hesitação por parte do adepto. Esse é o exercício da fé cega. Isso não ocorre na Doutrina Espírita, já que ela não é dogmática, nem esotérica, e nos incentiva à prática da fé raciocinada.
Por que será que Allan Kardec, perante uma dúvida, buscava a opinião de vários Espíritos e não aceitava a opinião de um só? Na introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo II, Kardec escreve que “o primeiro exame comprovativo é, pois, sem contradita, o da razão, ao qual cumpre se submeta, sem exceção, tudo que venha dos Espíritos”. [1]
Para não haver dúvida, Kardec adota o critério do Controle Universal do Ensino dos Espíritos (CUEE), em que prevalece o parecer da maioria, ao invés da opinião de um só Espírito. As respostas vieram através de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e de vários lugares, pois a concordância seria a melhor comprovação, segundo Kardec.
O contrário da dúvida é a certeza. Ela é a adesão a uma ideia, uma opinião, um fato, desconsiderando qualquer possibilidade de erro. Para a ciência, não existe a certeza absoluta, pois tudo possui um grau de incerteza.
O grande escritor russo Dostoievski, em seu monumental livro Os irmãos Karamazov, traz uma ideia interessante: “Ter certeza absoluta te coloca em uma gaiola, enquanto a dúvida te coloca em um voo de liberdade”. [2] Mas qual a recomendação de Kardec sobre o ensino dos Espíritos? Ter certeza absoluta ou duvidar de tudo?
No capítulo I, item 50, de A Gênese, Kardec discorre: “Os Espíritos não ensinam senão justamente o que é mister para guiá-lo no caminho da verdade, mas abstêm-se de revelar o que o homem pode descobrir por si mesmo”. [3] Pelo exposto, os Espíritos nobres não irão nos dar respostas prontas para aquilo que nos cabe e nem realizar o aprendizado por nós, pois se assim o fizessem, impediriam e prejudicariam o nosso progresso espiritual.
Quando os Espíritos deixam para nós a possibilidade de discutir as nossas dúvidas, de verificar e submeter tudo ao crivo da razão, estão nos incentivando ao exercício da fé raciocinada, baseada no conhecimento e na análise crítica da realidade e dos ensinamentos espirituais. Assim, nossa fé se fortalece por meio da razão.
Ainda em A Gênese, no capítulo I, item 55, Kardec coloca importante pressuposto:
“Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria neste ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará”. [4]
Um exemplo disso é a afirmação de Kardec em A Gênese, capítulo VI, item 26, sobre o fato de o planeta Marte não possuir satélites [5]. Em 1877, o astrônomo Asph Hall descobriu dois satélites orbitando Marte: Fobos e Deimos. Esta descoberta não afetou as bases doutrinárias e foi aceita conforme orientação de Kardec. Ficamos com a ciência.
Kardec foi chamado pelo amigo astrônomo Camille Flammarion de “o bom senso encarnado” [6], em discurso fúnebre durante seu enterro, já que, em vida, aplicava sem cessar à sua obra as indicações íntimas do senso comum.
A recomendação para nós, Espíritas, é não acreditar em tudo e nem duvidar de tudo. O correto é usar o bom senso em tudo, aprimorando nossa capacidade de analisar informações, textos, livros, mensagens e fenômenos de forma racional, com lógica e senso crítico, para tentar discernir o verdadeiro do falso. Para isso, é preciso estudar a Doutrina Espirita com seriedade, com método, começando pelo começo, isto é, com a codificação espírita.
Jesus foi hábil no recurso da dúvida inteligente, nos momentos em que não fornecia respostas prontas, mas colocava o interlocutor para pensar. Que dizem ser o filho do homem? E vós: quem dizem que eu sou? Que está escrito na Lei? Como tu a interpretas? Estes são pequenos exemplos da sua didática divina.
Também a Doutrina Espírita nos convida a questionar quem somos, de onde viemos e para onde iremos, qual a causa da dor e do sofrimento, das desigualdades e tantas outras questões fundamentais.
É certo que aquele que estuda a Doutrina Espírita e não apresenta dúvidas carece de mais entendimento. A dúvida inteligente é um recurso imenso de aferir o aprendizado. Tente explicar a você mesmo os princípios espíritas e descobrirá que ainda há espaço para estudar mais. Muitas vezes, a dúvida é o ponto de partida para uma busca mais aprofundada pela verdade, seja ela religiosa, científica ou filosófica. Ao confrontar as dúvidas, a pessoa se vê diante da necessidade de buscar respostas, o que pode levar a uma fé mais bem fundamentada e consciente, ou seja, raciocinada.
No Espiritismo, a fé raciocinada é a crença que se baseia na razão e no estudo, em vez de ser apenas uma crença herdada ou cega. É a fé que busca entender a doutrina, que analisa os fatos e questiona para chegar a uma convicção sólida, livre de dogmas e preconceitos. Duvidar de tudo ou acreditar em tudo não é saudável. Fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da humanidade”. [7]
É importante ressaltar que não se deve entender a fé raciocinada como algo frio, isento de sentimentos e de coração endurecido. Sabemos que a mensagem do Cristo precisa ser conhecida, meditada, sentida e vivida.
Enfim, a lâmpada de Kardec. No livro Senda para Deus [8], Emmanuel cita a fé raciocinada como a lâmpada que Kardec coloca nas mãos de cada um para iluminar o caminho da evolução. Diz Emmanuel:
“A tua fé será raciocinada, mas não fria […] Tua fé raciocinada constituirá, por fim, a lâmpada que Allan Kardec te colocou nas mãos, para que a chama da caridade nela flameje constantemente. Caminharás com ela e por ela atingirás a compreensão real dos ensinamentos do Cristo, aprendendo a servir com Ele, nosso Mestre e Senhor, para que o Reino de Deus se levante no coração dos homens, construindo a felicidade dos homens para sempre.”
REFERÊNCIAS:
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 121 ed. imp. Brasília: FEB, 2003, p. 30.
- DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamazov. Tradução Maria Franco, Nina de Guerra e Filipe Guerra, Antônio Pescada, 1 ed. imp. Em Portugal: Estúdios Cor, 1963.
- KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 43 ed. imp. Rio de Janeiro: FEB, 2003, p. 38.
- Idem, p. 44 e 45.
- Idem, p. 121.
- KARDEC, Allan. Obras póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 33 ed. imp. Brasília: FEB, 2003, p. 24.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 121 ed. imp. Brasília: FEB, 2003, p. 303.
- EMMANUEL (Espírito), XAVIER FC (Médium). Senda para Deus. 1 ed. Brasília: FEB, 2014.

