Organização e funcionamento de um centro espírita presencial (parte 2)
Um olhar sob o ponto de vista da espiritualidade
Emanoel de Castro Antunes Felício
Do trabalho de passes
No capítulo 17 do livro Nos domínios da Mediunidade, André Luiz descreve que, ao atravessar em companhia de Hilário a porta do serviço de passes, deparou-se com um ambiente balsâmico e luminoso. Hilário perguntou: “– Como compreender a atmosfera radiante em que nos banhamos?” Áulus explicou amigavelmente: “– Nesta sala se reúnem sublimadas emanações mentais da maioria de quantos se valem do socorro magnético, tomados de amor e confiança. Aqui possuímos uma espécie de altar interior, formado pelos pensamentos, preces e aspirações de quantos nos procuram trazendo o melhor de si mesmos. Os dois médiuns do centro espírita, Clara e Henrique, em tarefa de assistência, eram orientados pelos amigos espirituais que os dirigiam.”
Prosseguindo na busca de esclarecimentos, Hilário perguntou respeitosamente a Conrado, um trabalhador do mundo espiritual: “– O amigo permanece frequentemente aqui?” A que respondeu Conrado: “– Sim, tomamos sob nossa responsabilidade os serviços assistenciais da instituição, em favor dos doentes, duas noites por semana.”
Em prosseguimento, Hilário indagou a Conrado se o atendimento era somente de encarnados. A que Conrado respondeu: “– Não é bem assim. Atendemos aos necessitados de qualquer procedência”. Podemos depreender da resposta que o atendimento era dispensado a encarnados e desencarnados que buscavam auxílio.
Prosseguiu Hilário na sua inquirição a Conrado quanto ao número de trabalhadores do mundo espiritual: “– Conta com muitos cooperadores?” Conrado respondeu que ele fazia parte de “um quadro de auxiliares, de acordo com a organização estabelecida pelos mentores da esfera superior.”
Hilário continuou sua indagação: “– Quer dizer que, numa casa como esta, há colaboradores espirituais devidamente fichados, assim como ocorre a médicos e enfermeiros num hospital terrestre comum?” Conrado respondeu: “– Perfeitamente. Tanto entre os homens como entre nós, que ainda nos achamos longe da perfeição espiritual, o êxito do trabalho reclama experiência, horário, segurança e responsabilidade do servidor fiel aos compromissos assumidos. A Lei não pode menosprezar as linhas da lógica.”
Hilário, então, perguntou se os médiuns eram invariavelmente os mesmos. A resposta que recebeu foi a seguinte: “– Sim, contudo, em casos de impedimento justo, podem ser substituídos, embora nessas circunstâncias se verifiquem, inevitavelmente, pequenos prejuízos resultantes do natural desajuste.” Hilário “passeou o olhar inquieto pelos dois companheiros encarnados, em oração, e continuou: “– Preparam-se nossos amigos, à frente do trabalho, com o auxílio da prece?” A resposta veio logo em seguida: “– Sem dúvida. A oração é prodigioso banho de forças, tal a vigorosa corrente mental que atrai. Por ela, Clara e Henrique (médiuns encarnados) expulsam do próprio mundo interior os sombrios remanescentes da atividade comum que trazem do círculo diário de luta e sorvam do nosso plano as substâncias renovadoras de que se repletam, a fim de conseguirem operar com eficiência, a favor do próximo. Desse modo, ajudam e acabam por ser firmemente ajudados.”
Hilário prosseguiu com seu pensamento: “– Isso significa que não precisam recear a sua exaustão…” A que foi respondido: “– De modo algum. Tanto quanto nós, não comparecem aqui [referindo-se aos médiuns] com a pretensão de serem os senhores do benefício, mas sim na condição de beneficiários que recebem para dar. A oração, com o reconhecimento da desvalia, coloca-nos na posição de simples elos de uma cadeia de socorro, cuja orientação reside no Alto. Somos nós aqui, neste recinto consagrado à missão evangélica, sob a inspiração de Jesus, algo semelhante à singela tomada elétrica, dando passagem à força que não nos pertence e que servirá na produção de energia e luz.”
Hilário, desta vez, voltando-se para o instrutor Áulus, perguntou:
“– Em que bases se articula semelhante processo de cura?”
Responde o amorável benfeitor:
“– O passe é uma transfusão de energias, alterando o campo celular. Vocês sabem que na própria ciência humana de hoje o átomo não é mais o tijolo indivisível da matéria. Que, antes dele, encontram-se as linhas de força, aglutinando os princípios subatômicos, e que, antes desses princípios, surge a vida mental determinante. Tudo é Espírito no santuário da natureza. Renovemos o pensamento e tudo se modificará conosco. Na assistência magnética, os recursos espirituais se entrosam entre a emissão e a recepção, ajudando a criatura necessitada para que ela ajude a si mesma. A mente reanimada reergue as vidas microscópicas que a servem, no templo do corpo, edificando valiosas reconstruções. O passe, como reconhecemos, é importante contribuição para quem saiba recebê-lo, com o respeito e a confiança que o valorizam.”
Da evangelização da criança e do jovem
Em O Evangelho segundo o Espiritismo, a espiritualidade lembra-nos da responsabilidade dos pais com o processo educativo dos filhos. A maternidade e a paternidade são tratadas como uma missão:
“Ó, espíritas! Compreendei agora o grande papel da Humanidade; compreendei que, quando produzis um corpo, a alma que nele encarna vem do espaço para progredir; inteirai-vos dos vossos deveres e ponde todo o vosso amor em aproximar de Deus essa alma; tal a missão que vos foi confiada e cuja recompensa recebereis, se fielmente a cumprirdes. Os vossos cuidados e a educação que lhe dareis auxiliarão o seu aperfeiçoamento e o seu bem-estar futuro. Lembrai-vos de que a cada pai e a cada mãe perguntará Deus: que fizeste do filho confiado à vossa guarda?”
Joanna de Ângelis, no livro Constelação Familiar, orienta-nos:
“Como elemento fundamental na educação, a orientação religiosa à família torna-se inadiável. Cada vez mais se constatam os resultados benéficos da formação religiosa do indivíduo, especialmente quando despojada dos dogmas impositivos, das castrações puritanas, das exigências descabidas e das tintas do fanatismo de qualquer espécie. O indivíduo que tem formação religiosa possui muito mais resistência em relação aos enfrentamentos morais, orgânicos e emocionais do que aquele que não a tem.”
Diz-nos Bezerra de Menezes:
“O momento que atravessamos no mundo é difícil e sombrio, enquanto as sociedades terrestres necessitam, mais e mais, dos tocheiros do Evangelho, a fim de que não se percam nos meandros do mal ou resvalem nos penhascos do crime os corações menos experientes e as almas desavisadas. O sublime ministério da evangelização espírita infanto-juvenil nos pede progredir e avançar. Evangelizar nossas crianças e jovens é a meta, porque se a instrução informa e a educação forma, o evangelho transforma as criaturas.”
Revisitemos o Espírito Vianna de Carvalho no livro À Luz do Espiritismo, psicografado por Divaldo Franco. Informa-nos Vianna de Carvalho que
“nenhuma doutrina, como o Espiritismo, constitui fonte de inspiração e melhor caminho de aprimoramento para a mocidade. Como Jesus, Kardec convida os jovens, ensinando-lhes o roteiro eficiente para o Reino de Deus. O Espiritismo é mensagem viva de iluminação e felicidade para a juventude.
Apresentando efeitos, previne as causas, sugerindo consequências, ajuda as realizações. Assim informado, o moço espírita olha para o futuro seguro de si mesmo e, destemido, marcha para a frente. Liberta-se da intolerância, porque sabe ela a geratriz do crime, enquanto sente que a mocidade é sol de tolerância pleno de alegrias. Restaura a fraternidade, porque sente na mocidade a sede de comunhão com o próximo. Domina a paixão de qualquer natureza, por identificar na sua rede a causa de todos os males.
Espiritismo é a revivescência do Cristianismo, e a mocidade de agora, evangelizando-se, é o sol claro e puro de amanhã. Voltemo-nos para os moços. Demos-lhes as mãos e sigamos destemerosos, mantendo-nos leais à consciência reta, certos de que o nome da Doutrina Espírita, que ora acolhe a mocidade, está em nossas mãos, aguardando pela nossa ação.”
Da divulgação espírita
O capítulo 56 do livro Sol nas Almas trata do conhecimento espírita. O Espírito André Luiz, autor espiritual da mensagem, começa a reflexão da seguinte forma: “Muitos observadores perguntam por que motivo o ardor dos espíritas na preservação e na divulgação dos ensinamentos que abraçaram.”
O mentor espiritual prossegue dizendo que o conhecimento espírita, na essência, é tão importante no reino das almas quanto à alfabetização nos domínios da vida comum.
“Não tivéssemos o ensino, e a sociedade humana não passaria de uma selva. Poderíamos inculcar como insensatos os professores que se devotaram à educação no curso dos séculos? Assim, o Espiritismo. Doutrina que restaura o Cristianismo em sua pureza, é a religião natural da consciência na Terra e no Universo. Apoiemo-la na expansão necessária, iniciando-lhe a propaganda no exemplo individual e estendendo-a através do livro, do impresso avulso, da palavra, da preferência, da atitude.”
Na mensagem de número 37 do livro Opinião Espírita, psicografado por Francisco Cândido Xavier, André Luiz ratifica sua colocação anterior quando diz que “o Espiritismo possui a sua maior força nas realizações e no exemplo de seus seguidores, em cujo rendimento para o bem comum se lhe define a excelência.”
Ele prossegue dizendo que “não podemos relaxar a educação espírita desprezando os instrumentos de divulgação de que dispomos, a fim de estendê-la e honorificá-la.” Destaca o mentor espiritual que “Allan Kardec começou o trabalho doutrinário publicando as obras da Codificação e instituindo uma sociedade promotora de reuniões e palestras públicas, uma revista e uma livraria para a difusão inicial da Revelação Nova.”
Lembra ainda o mentor “que Jesus estimou a publicidade, não para si mesmo, mas para o Evangelho, é afirmação que não sofre dúvida.” Destaca André Luiz que Jesus recrutou doze discípulos para a divulgação dos seus ensinamentos e que Jesus fundou o Cristianismo por meio de assembleias públicas. Jesus também recrutou Paulo de Tarso para divulgar o Cristianismo junto aos gentios, observando que Jerusalém não se abria para a gentilidade.
André Luiz fecha a mensagem sobre a divulgação espírita da seguinte maneira: “Visto isso, não sabemos como estar no Espiritismo sem falar nele ou, em outras palavras, se quisermos preservar o Espiritismo e renovar-lhe as energias, a benefício do mundo, é necessário compreender-lhe as finalidades de escola e toda escola para cumprir o seu papel precisa divulgar.”
Da área da família
No capítulo 28 de O Evangelho segundo o Espiritismo, encontramos uma prece por uma criança que acaba de nascer, com a seguinte rogativa: “Senhor, lança paterno olhar sobre a família a que confiaste esta alma, para que ela compreenda a importância da sua missão e faça que germinem nesta criança as boas sementes, até o dia em que ela possa, por suas próprias aspirações, elevar-se sozinha para ti.” A rogativa pede um olhar paternal sobre a família.
Aprendemos com Joanna de Ângelis no livro Constelação Familiar, que a família é o resultado do largo processo evolutivo do Espírito na extensa trajetória vencida por meio das sucessivas reencarnações. Como eu encaro a família? Joanna de Ângelis responde:
“De inspiração divina, a família é a oportunidade superior do entendimento e da vera fraternidade, de onde surgirá o grupo maior, equilibrado e rico de valores, que é a sociedade. A constelação familiar não é uma aventura ao país enganoso do prazer e da fantasia, mas uma experiência de profundidade, que faculta a verdadeira compreensão da finalidade da existência terrena com os olhos postos no futuro da Humanidade.”
Como temos feito o trabalho com a família na casa espírita? Esse é um desafio para todos nós.
Do diálogo fraterno
Segundo Joanna de Ângelis, “o atendimento fraterno tem como objetivo primordial receber bem e orientar com segurança todos aqueles que buscam o centro espírita. Não se propõe a resolver os desafios nem as dificuldades, eliminar as doenças nem os sofrimentos, mas propor ao necessitado os meios hábeis para a própria recuperação.”
O trabalho em epígrafe não é uma percepção do autor. Trata-se de um olhar da espiritualidade sobre as atividades na casa espírita para as nossas reflexões. Que Deus ilumine nossas escolhas.

