Estudo dirigido pelo WhatsApp
Daniel Salomão Silva
Convite ao estudo é algo que não falta nos textos básicos espíritas. Já na introdução de O Livro dos Espíritos, Kardec nos propõe um estudo contínuo, metódico, e que sejamos “laboriosos e perseverantes nos vossos estudos, a fim de que os Espíritos superiores não vos abandonem, como faz um professor com os alunos negligentes”.1 Como última frase de O Livro dos Médiuns, de forma grave, ainda exorta: “é por isso que repetimos incessantemente: estudai, antes de praticardes, pois esse é o único meio de não adquirirdes experiência à vossa própria custa.”2
Nessa direção, as instituições espíritas têm, já há décadas, divulgado obras espíritas e organizado palestras públicas, escolas de evangelização infantojuvenil, cursos de formação e grupos de estudo. Também do ponto de vista federativo, em sua “Orientação ao Centro Espírita”, no tópico sobre a Área de Estudo do Espiritismo, a FEB destaca a importância da “formação continuada dos trabalhadores”.3 Ampliando essa discussão em documento específico, registra ainda a importância de se “divulgar as informações do Espiritismo e do Movimento Espírita em formato, estrutura e canais adequados aos públicos aos quais se destinam”.4 Alinhados a esses pressupostos, propomos no texto um formato de estudo dirigido simples.
Como complemento aos grupos de estudo e às palestras públicas, os grupos de WhatsApp podem se tornar importantes ferramentas para estudo, divulgação de eventos, obras espíritas etc. Contudo, em vez de aparentemente potencializar a divulgação, o excesso de mensagens pode minimizar a chance de que sejam efetivamente lidas. Mesmo que não seja o seu caso, muitos desanimam diante de tantas notificações, textos e imagens; outros acabam se perdendo perante tantas demandas de atenção; outros ainda podem vir a pensar que nada de útil pode derivar dessas conversas.
Com isso, não estamos menosprezando o caráter recreativo ou mesmo de fortalecimento de vínculos dos aplicativos de conversa. Isso tem sua relevância. Em verdade, se os grupos espíritas de que você faz parte já assumiram esse papel, talvez seja até interessante a criação de outros, específicos para o estudo doutrinário. Por exemplo, se os trabalhadores de determinada instituição fazem parte do grupo “Centro Espírita”, em que interagem saudavelmente de diversas formas, pode ser interessante a criação de um segundo grupo, com as mesmas pessoas, mas com o nome “Centro Espírita – Estudo Dirigido”. Nesse novo grupo, apenas os textos de estudo serão enviados e, consensualmente, nenhum dos membros enviará mensagens de “bom dia” ou imagens “bonitas”. Essas poderão continuar no grupo já existente.
Contudo, nossa sugestão é ainda mais específica e parte de duas observações. Em primeiro lugar, muitas vezes identificamos trabalhadores com pouca base doutrinária, pouca leitura, logo negligentes perante conceitos e práticas importantes. Se esse trabalhador não tem o hábito do estudo, naturalmente deve ser incentivado a isso, em grupo e individualmente. Todavia, não havendo formas de “obrigá-lo”, nem de “fiscalizá-lo” – o que também não desejamos –, é interessante que o centro espírita encontre mecanismos para pontuar de forma efetiva as bases doutrinárias.
Em segundo lugar, já é conhecido que textos grandes no WhatsApp ou em outras redes sociais, digitados ou em arquivos, têm menor chance de serem lidos, o que também vale para áudios e vídeos. Afinal, estudos identificam que “as pessoas leem cada vez mais on-line e de modo rápido”,5 dado bem conhecido pelos publicitários.6 Contudo, mesmo que não concordemos com essa superficialidade, nessas ferramentas, devemos nos adaptar a isso se quisermos ser lidos; na verdade, podemos usar essa característica a nosso favor. Isso não exclui a divulgação de textos e vídeos longos, com mais profundidade, que encontram na internet extraordinário meio de divulgação. Pelo contrário: textos curtos podem até ser um incentivo para que o estudioso os procure.
Afinal, que fique claro: essa proposta não substitui o estudo doutrinário individual e em grupo, nem as leituras completas das obras, nem é suficiente para a formação do trabalhador. Contudo, relembra e destaca pontos esquecidos ou mesmo desconhecidos por ele, sana possíveis dúvidas e minimiza divergências ou adoção de posturas não embasadas. Logo, tem caráter complementar: sua especificidade está no tamanho do texto estudado e na forma de interação com ele.
Vamos a ela. Primeiramente, o pequeno texto selecionado deve ser enviado pelo responsável alguns dias antes da reunião semanal. Interessante é que siga a sequência da obra escolhida, para que pré-requisitos e encadeamentos sejam estabelecidos. Ademais, buscando facilitar a probabilidade de sua leitura, nenhum vídeo, áudio ou texto auxiliar deve ser enviado em seguida. Mesmo comentários dos membros do grupo não devem ser feitos naquele momento: apenas aquele trecho curto deve ser lido e meditado individualmente.
Na reunião em questão, seja mediúnica ou de grupo de estudos de qualquer tema, um trabalhador já experiente e estudioso do Espiritismo fará um breve comentário sobre o texto enviado (entre 3 e 5 minutos), sem interrupção, destacando seus pontos principais. Em seguida, dependendo do tempo ou da vontade do grupo, o texto poderá até ser debatido, complementado, mas já com seu cerne bem exposto.
Por exemplo, com foco no trabalho mediúnico, o seguinte texto de O Livro dos Médiuns poderia ser enviado:
(…) seja qual for a diversidade dos Espíritos que se comunicam com um médium, os ditados que este obtém, ainda que procedendo de Espíritos diferentes, trazem, quanto à forma e ao colorido, o cunho que lhe é pessoal. Com efeito, apesar de o pensamento não lhe ser de todo estranho, não obstante o assunto esteja fora do âmbito em que ele habitualmente se move, e embora não provenha dele o assunto que nós queremos dizer, nem por isso o médium deixa de exercer influência quanto à forma, pelas qualidades e propriedades inerentes à sua individualidade. É exatamente como se observásseis panoramas diversos, com lentes matizadas, verdes, brancas ou azuis; embora os panoramas, ou objetos observados, sejam inteiramente opostos e independentes uns dos outros, não deixam por isso de afetar uma tonalidade que provém das cores das lentes.7
Naturalmente, é interessante que esse exemplo suceda a outros itens do mesmo capítulo, não que “abra” o tema. De qualquer forma, na reunião em questão, o responsável poderia destacar o papel de intérprete do médium, sua influência constante sobre as comunicações que transmite e as naturais diferenças entre as mediunidades de cada um. Logo, promover a compreensão perante cada médium, bem como o cuidado e a humildade que devemos cultivar perante o que vem dos Espíritos. Fica o convite à tentativa.
1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2010, introdução, VIII.
2 KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2008, 2. p., c. 31, i. XXXIV, nota.
3 FEB. Orientação ao Centro Espírita. Brasília: FEB, 2021, p. 113.
4 FEB. Orientação para a Área de Estudo do Espiritismo. Brasília: FEB, 2019, p. 28.
5 BBC. Hábitos digitais estão “atrofiando” nossa habilidade de leitura e compreensão? 25 de abril de 2019. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/salasocial-47981858. Acesso em: 03 de outubro de 2025.
6 EXAME. A tendência que está redefinindo o marketing nas redes sociais. 15 de agosto de 2025. Disponível em: https://exame.com /carreira/a-tendencia-que-esta-redefinindo-o-marketing-nas-redes-sociais/. Acesso em: 03 de outubro de 2025.
7 KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2008, 2. p., c. 19, i. 225.

