O Espiritismo no Censo 2022


Daniel Salomão Silva

Publicados recentemente, os resultados preliminares do Censo Demográfico 2022 relativos às religiões revelaram decréscimo de aproximadamente 0,2% entre os que se declaram espíritas (de 2,0% em 2010 para 1,8% em 2022).1 Entretanto, embora oscilante entre os anos 1940 e 1991, entre os dois levantamentos anteriores, o crescimento havia sido expressivo, de aproximados 65% (de 1,3% em 2000 para 2,0% em 2010).2 Essa inflexão naturalmente deve ser encarada como um convite à reflexão, que promovemos introdutoriamente neste artigo. Como é de se esperar, as primeiras manifestações têm girado em torno das possíveis causas dessa diminuição. Afinal, identificando-as, poderíamos enfrentá-las e propor mudanças em nossas abordagens e vivências religiosas. Nessa investigação, ainda incipiente, alguns pontos merecem atenção.

Em paralelo ao decréscimo espírita, os dados de 2022 revelaram um aumento de 0,3% para 1% dos que se declaram de religiões afro-brasileiras, como a Umbanda e o Candomblé. Pesquisadores têm apontado que, devido ao preconceito de que são alvo, muitos afro-brasileiros estão ocultos nas rubricas “católico” e “espírita”, informação que o Censo não consegue detectar.3 Contudo, um “novo clima de liberdade religiosa”, em que a tolerância e o respeito têm sido defendidos abertamente,4 parece favorecer que parte dos afro-brasileiros que se declarava espírita ou católico se sinta mais segura para identificar sua real confissão religiosa em 2022. Admitindo essa hipótese, podemos deduzir que os percentuais anteriores já não refletiam a quantidade “real” de espíritas. Naturalmente, isso não é algo que devamos combater, pois consideramos a liberdade de pensamento e de consciência como lei de Deus.5

Em segundo lugar, a análise dos dados mostra que os espíritas “são os que apresentam os menores percentuais de indivíduos sem instrução e com ensino fundamental incompleto (11,3%), e o maior percentual de nível superior completo (48,0%)”.6 Relacionado a isso, estão também entre os que apresentam percentualmente a melhor condição econômica. Contudo, já em sua época, Kardec não via problema nisso. Para ele, ter adeptos “principalmente nas classes esclarecidas” era assegurar que o Espiritismo tinha um “fundo de verdade”.7 Contudo, isso de forma alguma excluía ou exclui a presença dos que têm menor instrução ou renda, nem reduz a preocupação espírita com questões sociais. Já na França do século XIX, o Codificador reconhecia satisfeito a presença de operários entre os espíritas.8 De qualquer forma, isso serve de alerta para que observemos com mais cuidado nossos métodos de divulgação e linguagens, para que o Espiritismo possa ser difundido universalmente.

Também correlacionados aos níveis de renda e instrução, dados referentes à fecundidade apontam entre as mulheres espíritas o menor número de filhos entre os grupos religiosos. Enquanto a taxa de fecundidade no Brasil foi de 1,6 filho por mulher em 2022, entre os espíritas ficou em 1,01.9 Estatísticas ainda mais complexas apontam também redução progressiva da taxa de transmissão da religião dos pais para os filhos entre os espíritas desde 1980.10 Possivelmente relacionada a essas tendências, a análise dos dados em cada faixa etária indica percentual ainda menor de espíritas entre os mais jovens.11

Esses três pontos que destacamos não encerram todas as causas da estagnação percebida e ainda merecem muita investigação. Contudo, o terceiro já nos parece um convite a repensar a forma como nós, espíritas, temos lidado com a vida material, logo com nossas prioridades. Deveriam estar entre elas a divulgação do Espiritismo no próprio lar e a condução de nossas crianças e jovens aos centros espíritas, mas não apenas. Ainda que a proposta espírita rejeite qualquer proselitismo radical, como aponta o Codificador,12 se reconhecemos nela uma importante contribuição para a humanidade, é natural que queiramos sua divulgação, sempre de forma respeitosa e convidativa. O próprio Allan Kardec nos convida a “fazer prosélitos entre os homens de boa vontade, entre os que desejam a luz”.13

Como apontam os Espíritos, o Espiritismo certamente “se tornará crença geral” e, mesmo perante grandes lutas, “ocupará lugar entre os conhecimentos humanos”. Em nota à mesma questão, o Codificador detalha ainda sua expectativa de que a marcha das ideias espíritas “será mais rápida que a do Cristianismo”.14 Contudo, sabendo da pequena presença espírita no mundo e de sua aparente estabilização minoritária no Brasil, essa avaliação otimista não parece estar equivocada? Pensamos ainda ser cedo para dizer isso.

Em primeiro lugar, mesmo que Kardec nos fale que “durante duas ou três gerações, ainda haverá um fermento de incredulidade que só o tempo dissipará”,15 não prevê uma aceitação geral do Espiritismo logo após essa curta janela de tempo. Logo, nada justifica a expectativa de uma adesão maciça já nos dias de hoje. Em segundo lugar, embora não possa impedir a marcha do progresso ou atrasá-la consideravelmente, a humanidade pode “entravá-la algumas vezes”,16 o que também nos responsabiliza pela expansão das ideias espíritas: talvez pudessem estar mais presentes atualmente.

Todavia, em terceiro lugar, parece-nos que, ao contrário do que muitas vezes se pensa, essa previsão dos Espíritos não se refere à adoção da confissão religiosa espírita, mas à aceitação das ideias espíritas. Nesse ponto, os resultados são mais favoráveis. Já em análises anteriores, especialistas perceberam certa “impregnação espírita da sociedade brasileira”,17 “uma grande circulação de crenças espíritas em espaços não espíritas”.18 Em sua chegada ao Brasil, no século XIX, o Espiritismo encontrou uma sociedade já afeita às conversas com os “mortos” e à presença dos Espíritos no dia a dia (a relação com os santos no Catolicismo popular e com entidades e orixás nas tradições de origem africana são exemplos disso). Assim, foi bem acolhido desde seu início, alinhado à certa “matriz religiosa brasileira”.19 Parece-nos que, ao enriquecer conceitos já plausíveis a boa parte da população, conquistou sua posição atualmente marcante no pensamento brasileiro.

Nesse sentido, cumpre seu papel de terceira revelação judaico-cristã, enquanto explicação complementar da tradição religiosa majoritária no Brasil, sem substituir ou negar a importância atual das diversas confissões religiosas para o desenvolvimento humano. Como aponta Kardec, “desenvolve, completa, explica, em termos claros para todo mundo, o que foi dito apenas sob forma alegórica”.20 Assim, busca confirmar a moral de Jesus, “mostrar-nos sua utilidade prática”21 e, pela experimentação e pelo registro das manifestações dos Espíritos, demonstrar a realidade de princípios de todas as religiões.22 Contribui para o progresso ao combater o materialismo,23 convidando-nos a priorizar o espiritual sobre o material, logo abrindo portas à vivência da caridade em todos os seus aspectos.

Assim, sem alarde desnecessário ou soluções definitivas, de nossa breve reflexão a partir do Censo 2022, concluímos:

  1. Sem muita novidade, fundamental é prosseguirmos divulgando o Espiritismo: nos trabalhos diários dos centros espíritas; nas ações federativas; nas produções e eventos artísticos; na promoção da leitura e do estudo espíritas; pela internet e presencialmente; a crianças, jovens e adultos; sempre abertos a novas formas e métodos, sem abrir mão de nossos princípios básicos;
  2. Nessa direção, identificando a preferência sempre respeitável de certos grupos por outras religiões, é importante conhecermos suas demandas e refletirmos sobre adaptações de linguagem, textos e métodos que facilitem seu acesso às ideias espíritas;
  3. Como não competimos no atual “mercado religioso”, necessário é reconhecer a importância das demais religiões, com suas diversas linguagens e prioridades, entendendo que também cumprem o papel de promover o espiritualismo e a caridade. Necessário ainda é nos aproximarmos mais delas, em fraterno diálogo inter-religioso, trabalhando juntos pela melhoria do planeta;
  4. Por fim, individualmente, devemos nos esforçar mais pelo compromisso com os trabalhos espíritas, mas principalmente pela vivência de seus preceitos no lar e na sociedade, refletindo sobre nossas prioridades.

1 IBGE. Censo Demográfico 2022: religiões: resultados preliminares da amostra. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=2102182. Acesso em 05 de julho de 2025.

2 LEWGOY, Bernardo. A contagem do rebanho e a magia dos números: notas sobre o Espiritismo no Censo de 2010. In: TEIXEIRA, Faustino; MENEZES, Renata (orgs.). Religiões em movimento: o Censo de 2010. Petrópolis: Vozes, 2013, p. 198.

3 CAMARGO, Cândido P. F. Kardecismo e Umbanda. São Paulo: Pioneira, 1961.

4 PRANDI, Reginaldo. As religiões afrobrasileiras em ascensão e declínio. In: TEIXEIRA, Faustino; MENEZES, Renata (orgs.). Religiões em movimento: o Censo de 2010. Petrópolis: Vozes, 2013, p. 205.

5 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2009, q. 835 a 842.

6 IBGE. Censo Demográfico 2022: religiões: resultados preliminares da amostra. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=2102182. Acesso em 05 de julho de 2025, p. 40.

7 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2009, conclusão, V; O que é o Espiritismo, Rio de Janeiro: FEB, 2009, c. 1, Segundo diálogo.

8 KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos, ano IV, 1861 (nov.). Catanduva: Edicel, 2016, p. 373.

9 TAXA de fecundidade no Brasil é de 1,6 filho por mulher. Poder 360. 27 de junho de 2025. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-brasil/taxa-de-fecundidade-no-brasil-e-de-16-filho-por-mulher/. Acesso em 11 de julho de 2025.

10 ALMEIDA, R., BARBOSA, R. Transmissão religiosa nos domicílios brasileiros. In: TEIXEIRA, Faustino; MENEZES, Renata (orgs.). Religiões em movimento: o Censo de 2010. Petrópolis: Vozes, 2013, p. 322.

11 IBGE. Censo Demográfico 2022: religiões: resultados preliminares da amostra. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=2102182. Acesso em 05 de julho de 2025, p. 37.

12 KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2009, c. 1, “O crítico”, p. 16.

13 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2010, c. 24, i. 10 (cf. c. 20, i. 4 e 5).

14 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2009, q. 798 (cf. conclusão, V).

15 Idem (cf. introdução, VII).

16 Idem, q. 781 e 800.

17 TEIXEIRA, Faustino. O Censo de 2010 e as religiões no Brasil: esboço de apresentação. In: TEIXEIRA, Faustino; MENEZES, Renata (orgs.). Religiões em movimento: o Censo de 2010. Petrópolis: Vozes, 2013, p. 28.

18 LEWGOY, Bernardo. A contagem do rebanho e a magia dos números: notas sobre o Espiritismo no Censo de 2010. In: TEIXEIRA, Faustino; MENEZES, Renata (orgs.). Religiões em movimento: o Censo de 2010. Petrópolis: Vozes, 2013, p. 199.

19 BITTENCOURT FILHO, José. Matriz religiosa brasileira: religiosidade e mudança social. Petrópolis: Vozes, 2003, p. 53.

20 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2010, c. 1, i. 7.

21 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2009, conclusão, VIII.

22 Idem, q. 148 (nota).

23 Idem, q. 799.

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