Timóteo: o herdeiro espiritual de Paulo de Tarso
Pedro Arthur
Quando mencionamos a história do Cristianismo, é comum que a memória nos remeta às figuras que desempenharam papel fundamental na disseminação da Boa Nova. Entre elas, desponta Paulo de Tarso, o célebre convertido de Damasco, cuja influência é inegável.
A figura do inolvidável tecelão não se avulta por acaso aos nossos olhos. Forte e corajoso, Paulo foi capaz de ouvir a exortação do mestre, arrepender-se, negar a si mesmo, tomar a sua cruz e ser fiel até o fim. Ao analisar sua trajetória, observamos a providência divina atuando na cooperação, através das criaturas, a fim de auxiliar o cumprimento dos seus deveres.
“Sem Estevão, não teríamos Paulo de Tarso.”1 Os caminhos de ambos, entrelaçados pela sabedoria divina, forjaram a personalidade do apóstolo generoso no alvorecer da sua trajetória cristã. Conservando no íntimo as lições do grande mártir do Cristianismo, Paulo lançaria mão desse mesmo recurso já ao final de sua trajetória, transmitindo o mesmo impulso ao encorajar um jovem a dar continuidade à obra missionária.
Ao chegar em Listra, em uma de suas viagens, o inolvidável tecelão foi recebido com ternura em um lar cheio de afeto.2 A família era composta por Loide, viúva de um abastado grego; Eunice, sua filha também viúva; e Timóteo, o grande tesouro da família. No momento oportuno, ao anunciar a Boa Nova, o apóstolo encontrou corações atentos e olhares iluminados pela esperança. Timóteo, no entanto, revelava um ardor incomum para alguém de sua juventude. Nos três dias em que o apóstolo ali permaneceu, o jovem não desperdiçou nenhuma oportunidade para absorver os ensinamentos da doutrina nascente, envolvendo-se em profundas reflexões com Paulo, que o acolhia com genuína afeição.
Os laços que unem esses dois Espíritos eram, naquele instante, reconstituídos. Mais tarde, Timóteo uniu-se à caravana missionária,3 tornando-se um dos mais jovens arautos da Boa Nova. Como fiel colaborador de Paulo, participou ativamente da expansão do Evangelho, sendo testemunha das alegrias que iluminavam o apóstolo e dos silenciosos sofrimentos que envolviam o árduo compromisso com o serviço do Cristo.
Entre os cooperadores de Paulo, Timóteo é um dos mais notórios, tendo seu nome amplamente citado no Novo Testamento. Ele é mencionado em Atos dos Apóstolos e em nove das catorze cartas atribuídas ao apóstolo, sendo o destinatário de duas delas. Timóteo foi enviado em nome de Paulo para importantes missões em Tessalônica (1Tm 3:2), Filipos (Fp 2:19) e Corinto (1Co 4:17). Além disso, é coautor de cinco cartas (II Coríntios, Filipenses, 1 Tessalonicenses, II Tessalonicenses e Colossenses) e figura na saudação da epístola aos Romanos (Rm 16:21).4
O que desejamos ressaltar nesta singela reflexão é a forma como eles se relacionavam. Já nos últimos dias de sua experiência terrena, Paulo escreve-lhe com ternura: “A Timóteo, meu amado filho.”5 Esse tom pessoal permeia toda a segunda carta, revelando a profunda relação afetiva de pai e filho que se desenvolveu entre eles. O ex-conselheiro do Sinédrio guardava em seu coração o grande ensinamento de Jesus: “Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto, todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros.”6
Após anos dedicados à propagação da Boa Nova, Paulo compreendeu que a essência do verdadeiro trabalho de evangelização reside na reconstrução de laços afetivos. Antes de esclarecer um trecho do Evangelho ou orientar os discípulos neófitos, ele priorizava o estabelecimento de relações sólidas, transparentes e permeadas de amor.
Nós, espíritas-cristãos, devemos assumir essa mesma meta: edificar, na vivência cristã, vínculos alicerçados no amor fraterno. Amar, no sentido mais elevado da palavra, é colocar o coração em cada tarefa que empreendemos, refletindo o ensinamento do Cristo em nossas ações.
O apóstolo dos gentios reconhecia em Timóteo imenso potencial de grandeza. Para Paulo, aquele jovem era como uma semente repleta de possibilidades de se transformar em uma árvore frondosa e frutífera. Por isso, confiava-lhe a coroa da luta edificante, seguro de sua capacidade de perseverar.
Sempre atento aos preceitos do Evangelho, Paulo incentivava Timóteo a estudar continuamente.7 Na segunda carta, ele o elogia por haver guardado com fidelidade os fundamentos do Evangelho,8 afinal, muitos iniciam a caminhada, mas poucos prosseguem, e raríssimos são os que concluem a jornada fiéis à essência e aos alicerces do Evangelho.
Parafraseando Emmanuel, não teríamos Timóteo sem Paulo. Pela sabedoria divina, seus caminhos se entrelaçaram, refletindo também aqueles que cruzam os nossos passos. Um dia, estivemos na alvorada de nossa jornada, absorvendo os primeiros ensinamentos do doce Rabi da Galileia. Hoje, somos convidados a abrir as portas de nossa alma a tudo o que é útil, nobre, belo e santificante, dedicando-nos de coração ao serviço da Boa Nova.
Empenhemos nossos esforços em “domar suas inclinações más”,9 construindo laços de fraternidade, para que sejamos reconhecidos como verdadeiros espíritas-cristãos, transmitindo ao próximo aquele mesmo impulso propagado por Paulo ao jovem Timóteo, compartilhando a alegria de caminhar com Jesus.
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1- XAVIER, Francisco Cândido. Paulo e Estevão. Pelo Espírito Emmanuel. 5ª ed. Brasília: FEB, 1955 – “Breve Notícia”.
2 – O Novo Testamento. Atos 16:1. Bíblia do Peregrino. Paulus.
3 – XAVIER, Francisco Cândido. Paulo e Estevão. Pelo Espírito Emmanuel. 5ª ed. Brasília: FEB, 1955 – pg. 356 a 358. Indicadores 4 a 10.
4 – SILVA, Saulo Cesar Ribeiro. O Evangelho por Emmanuel: comentários às cartas de Paulo – Introdução às Cartas a Timóteo.
5 – O Novo Testamento. II Timóteo,1:2. Bíblia do Peregrino. Paulus.
6 – O Novo Testamento. João 13:34-35. Bíblia do Peregrino. Paulus.
7 – O Novo Testamento. I Timóteo 4:11-16. Bíblia do Peregrino. Paulus.
8 – O Novo Testamento. II Timóteo, 3:10. Bíblia do Peregrino. Paulus.
9 – KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Edição histórica. Brasília: FEB, 2013 – Cap. XVII – Sede Perfeitos – Os bons espíritas.