Transformação moral – um processo psicodinâmico
Scheila Mara Batista Pereira
Dia desses, relendo as reflexões do filósofo alemão Immanuel Kant (1724 – 1804) a respeito do dever moral e do valor das ações humanas1, detivemo-nos no ponto em que Kant propõe que o que caracteriza uma ação realizada por dever não está vinculada àquilo que se quer, mas antes às razões que levaram alguém a querer algo. Noutras palavras, uma ação por dever não se apresenta naquilo que se faz, mas no porquê se faz o que se faz.
Por que (re)ajo de tal forma diante das responsabilidades que me pertencem? Por que dada emoção emerge quando preciso me desincumbir de determinada tarefa? Ou, ainda, o que habita em mim e que me faz postergar ou sabotar projetos de mudança?
Identificar o que está na base de nossos pensamentos e ações não é algo que se acessa com facilidade, uma vez que é preciso corajoso movimento para dentro de nós mesmos, a fim de (re)conhecer motivações, desejos e emoções que alimentam conflitos geradores de tantos outros conflitos. E a situação se torna mais delicada quando buscamos, na tentativa de realizar esse movimento, efetivar mudanças meramente comportamentais e que não se sustentam diante dos desafios da vida.
Ampliando nosso raciocínio: provavelmente boa parte dos amigos leitores já leu o item “O Homem de Bem”, integrante do cap. XVII de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Nele, Allan Kardec discorre sobre conquistas essenciais para nosso desenvolvimento e crescimento espiritual. Não é um texto complexo, pelo contrário, acessível e de fácil compreensão. À medida que vamos, porém, apropriando-nos cognitivamente dos caracteres do homem de bem e pretendemos alcançar esse estágio evolutivo, tendemos a simplificar o processo e a idealizar para nós um comportamento que ainda não é conquista nossa; passamos a desejar uma conduta que não temos e almejamos ser algo que percebemos não conseguir ser. Um sentimento de inadequação interior toma-nos o mundo íntimo e corremos o risco de tentar fugir de nós mesmos para não nos aprofundarmos em nossa realidade emocional e espiritual.
Sigmund Freud, em seus estudos sobre histeria2, tratou pacientes que viviam em busca de atender a uma adequação moral e que, por isso mesmo, adoeciam. Mas o extraordinário é que Freud identificou que o verdadeiro problema e o motivo pelo qual as pessoas adoeciam não era o fato de buscarem uma transformação, mas a forma como buscavam essa transformação: apenas externamente e não estruturalmente.
Tentamos nos defender daquilo que não atende ao nosso ideal através da REPRESSÃO ou da RESISTÊNCIA. A primeira consiste no movimento de retirada de algo da consciência em direção ao inconsciente; a segunda, na força despendida para que o conteúdo permaneça inconsciente. Quando nos defendemos de um conteúdo, estamos apenas fingindo para nós mesmos que somos diferentes, mas não nos transformando de fato.
Como prosseguir, então, nessa jornada em busca do EU, quando o mundo convida a todo momento para exibição da exterioridade das aparências? O evangelho de Jesus não parece distante da realidade?
Respondendo às questões acima, o benfeitor espiritual Emmanuel, no cap. 21 da obra Pensamento e Vida, traz afirmação que nos esclarece e consola. Diz ele: “Jesus sempre propõe o dever, a ação; bem entender, a fim de melhor atuar. Ele não induz ninguém à alienação da realidade objetiva do mundo.”
E esse é o tom de significativo diálogo ocorrido entre o Mestre e Bartolomeu3. Na amorosa tarefa de acolher o trabalhador envolvido em angústias comuns a muitos de nós, escuta o Mestre a pergunta do humilde pescador:
“ – Senhor, o evangelho exige de nós fortaleza constante?”.
Ao que responde com a firmeza que educa e conforta:
“ – A verdade não exige, transforma.”
Guardemos no pensamento e no coração a iluminada resposta de Jesus a Bartolomeu para que ela, em nos enchendo a alma de esperança, incentive-nos a jornadear para dentro de nós mesmos revelando o sal e a luz que somos nós!
Bibliografia:
- KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes. Trad. Paulo Quintela. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
- BREUER, J. & FREUD, S. (1893-1895). Estudos sobre a Histeria. Em: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud.
- Humberto de Campos/FCX. Boa Nova. FEB editora, 2013.