Médium de Sustentação: este ilustre desconhecido

José Fernando

“Faça o que pode, com o que você tem, no lugar onde você está”
– Theodore Roosevelt –

João Firmino, dedicado seareiro dos campos férteis da Doutrina Espírita aportou ao movimento doutrinário em plena madureza de suas cinquenta e poucas primaveras. Não muito letrado, era daquelas personalidades sérias, porém afáveis no trato comum e profundamente interessado em penetrar, com denodo e infinita curiosidade, na intimidade do conhecimento espírita. Manifestava, constantemente, especial interesse em desbravar as terras já arroteadas da mediunidade, tão bem trabalhadas pelo insigne Mestre de Lyon. Devido a este particular, foi bem aceito na grei espiritista e não demorou muito a ser convidado para pertencer aos quadros de componentes de uma singela reunião de desobsessão. Em lá chegando, por ordem do dirigente, aquietou-se humildemente a um cantinho obscuro da chamada “segunda corrente”, mais próximo de médiuns ostensivos e distante do responsável pelos trabalhos, razão pela qual acompanhava apaixonadamente as manifestações mediúnicas de espíritos diversos, afeiçoando-se mais às passividades dos sofredores espirituais de todo jaez. Sonhava, intimamente, em um dia produzir encantadores fenômenos de incorporação não por vaidade, que em si mesmo era bem escassa, mas para servir à causa da caridade como ensinava Jesus. Passaram-se os anos e, frustrado por não ter tido ensejo de desenvolver nenhuma faculdade medianímica, pediu licença de suas funções e passou a dedicar o seu tempo a dirimir a carência dos sofredores encarnados, no setor da assistência social. Estaria nosso conhecido amigo fadado a nunca experimentar as agruras e também as belas compensações do exercício da mediunidade ou terá havido alguma falha de comportamento do grupo a que se firmara, na condução e orientação de suas possibilidades mediúnicas?

Antes mesmo de demandar respostas para a evasão de medianeiros em tais situações, carece definir a que tipo de variedade fenomênica se enquadraria o caso de nosso amigo João Firmino. Na nomenclatura Kardequiana não se vislumbra um termo específico a qualificar o modus operandi de um componente de reunião mediúnica que não seja portador de mediunidade ostensiva e nem possua funções ditas administrativas como planejar, organizar, dirigir e controlar a funcionalidade do evento. O saudoso escritor Hermínio Miranda, exímio conhecedor dos fenômenos mediúnicos e paranormais, em sua vasta literatura que analisou a grande diversidade das faculdades da alma humana, classificou a presença deste tipo de trabalhador utilizando apenas o termo “participante”. Para ele, em sua especialização nesta área, o aludido trabalhador das reuniões de intercâmbio com os Espíritos, (1)deve preparar-se para a possibilidade eventual de conviver com o grupo por muitos anos, sem que nenhum fenômeno ostensivo seja apresentado em sua intimidade”.Hermínio deixa em suspense uma esperança de que, em futuro não definido, o comprovadamente dedicado trabalhador, poderá usufruir das belezas e da grandeza do exercício mediúnico quando assim se refere: (2)comum mesmo o desenvolvimento de preciosas mediunidades, as quais se acham apenas em potencial, em período de expectativa e de provas, a fim de se lhes experimentarem a paciência e a tenacidade”.

Ainda na procura de um vocábulo mais apropriado podemos encontrar no dicionário de verbetes especializados (3) Doutrina Espírita No Tempo e No Espaço um termo específico como “Médium Vibracional” que se refere àquele que procura envolver o irmão necessitado, encarnado ou desencarnado, em ondas de energia eletromagnética imbuídas de afeto, bem-estar e saúde por meio da oração e da força do pensamento em Deus. 

(4) Contudo a expressão atualmente mais utilizada se firmou como “médium de sustentação” aplicada ao componente da reunião mediúnica que, por não apresentar a ostensividade do fenômeno, pode funcionar como dínamo de vibrações amorosas garantindo, assim, a sustentação da corrente mediúnica. É o irradiador constante de plasma psíquico e mental, utilizado pelos Espíritos Superiores em prol dos espíritos sofredores.

Corroborando a importância da participação do médium de sustentação numa reunião de desobsessão André Luiz ao presenciar, no plano espiritual, o trabalho dos Espíritos que manipulavam os fluidos produzidos pelos encarnados, surpreso, indagou do orientador sobre a utilidade de tal serviço. Seu instrutor incontinenti lhe respondeu: (5) “[…] com os raios de energia, de variada expressão emitidos pelo homem encarnado, podemos formar certos serviços de importância para todos aqueles que se encontrem presos ao padrão vibratório do homem comum, não obstante permanecerem distantes do corpo físico”.

Retornando às reflexões iniciais o que se poderia fazer para que casos de deserção das tarefas de sustentação, como ocorreu com nosso amigo João Firmino, não venham mais ocorrer?

Na verdade, a gênese do desencanto do tarefeiro da sustentação reside, quase sempre, na falta de estímulos positivos que ele deveria receber, e raramente recebe, dos demais participantes dos trabalhos desobsessivos. A experiência nos induz acreditar que várias atitudes, principalmente do dirigente, deveriam ser providenciadas para que o médium tenha uma participação mais ativa e compartilhe, com os demais, dos júbilos e das responsabilidades oriundos da faina medianímica. Exemplos: 1- na avaliação final destacar a importância de seu trabalho: 2 – demonstrar que o grupo o ama e o quer sempre ao seu lado; 3 – elencar alguns benefícios que também ele aufere no convívio semanal com o grupo. 4- pedir sempre a sua opinião nos momentos de avaliação geral; 5- dar tarefas como proferir a prece final e aplicar o passe nos médiuns que se desgastarem na psicofonia e 6- incentivá-lo ao estudo para que possa, no futuro, dialogar com os espíritos desencarnados.

Ao concluir nossas reflexões temos que considerar que o assunto médium de sustentação ainda é bastante novo e que muito temos a aprender. Portanto, aos anônimos e laboriosos médiuns que sustentam a homogeneidade das nossas reuniões recordamos novamente Belmiro Braga em uma pequena estrofe do poema intitulado “bilhetes”. (6)

No impulso que te conduz,
Age sempre com bondade,
Todo esforço com Jesus,
É vida na eternidade.

Referências:

  1. Miranda, Hermínio – Livro: “Diálogo com as Sombras” 10ª ed. FEB Cap. 1- “Outros participantes” pag.84.
  2. Idem, pag. 83.
  3. AA. Merci Spada Borges- Doutrina Espírita No Tempo E No Espaço:800 Verbetes Especializados. 1 janeiro 2000.
  4. União Espírita Mineira (AOM)- Apostila-2013.
  5. Luiz, André (Espírito) Missionários da Luz/ ditado pelo Espírito André Luiz; psicografado por Francisco Cândido Xavier – 36 ed. Rio de Janeiro- FEB, 2001 pag. 270.
  6. Xavier, Francisco Cândido – livro Parnaso de Além-túmulo-Ed. FEB- pag. 126 – “Bilhetes”.

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