Bases doutrinárias para a ação social espírita
Daniel Salomão Silva
Em artigos anteriores discutimos alguns aspectos da ação social espírita, quanto ao acolhimento de famílias em situação de vulnerabilidade social em grupos de estudoi e quanto à promoção de cursos profissionalizantes nas instituições espíritas.ii Nesse artigo, apresentamos alguns recortes da Codificação que devem embasar tarefas como essas, que entendemos como fundamentais para o centro espírita.
Em primeiro lugar, sem negar seu caráter moral aplicável a qualquer situação ou indivíduo, destacamos aqui a caridade em seu aspecto material, naturalmente mais aplicável àqueles em condição de vulnerabilidade social. A caridade material tem importância inegável para o Espiritismo, como atestam textos básicos,iii e não deve ser esquecida sob o argumento de que o “espiritual” é mais relevante.iv Em segundo lugar, com isso não afirmamos que os vulneráveis socialmente só precisam de apoio material, pois também podem apresentar questões emocionais, espirituais ou de qualquer outro teor. Em terceiro lugar, em diálogo com o que tem sido nas últimas décadas um acalorado debate político, é importante observar que o pensamento espírita não se alinha a propostas que radicalizem no indivíduo ou na sociedade, como se fossem polos opostos e excludentes, as responsabilidades pelos problemas sociais.
De O Livro dos Espíritos, já reconhecendo a imortalidade da alma e suas múltiplas experiências encarnatórias, compreende-se que cada um dos Espíritos “viveu mais ou menos tempo e, por conseguinte, obteve maior ou menor soma de aquisições”. Logo, tanto pela diversidade das experiências vivenciadas, quanto pelo livre-arbítrio em seu aproveitamento, reúnem diferentes aptidões.v Apenas por isso, bandeiras como a de igualdade absoluta das riquezas se mostram utópicas, pois a “diversidade das faculdades e dos caracteres a isso se opõe”.vi Ainda que já chamando a atenção para a responsabilidade conjunta da sociedade pelas desigualdades sociais – que não entendem como sinônimo de desigualdade das riquezas –, os Espíritos também indicam que, na maioria das vezes, os indivíduos devem atribuir a si mesmos a falta de “meios de subsistência, mesmo quando cercados pela abundância”.vii
Todavia, em outras questões, indicam fatores aparentemente externos ao indivíduo como causas de sua situação de vulnerabilidade social, como responsabilidade da sociedade. Nessa última resposta que citamos acima, também afirmam os Espíritos que o “egoísmo dos homens, que nem sempre fazem o que devem”, está por trás da falta de meios de subsistência de certos indivíduos.viii Mais à frente, mesmo reconhecendo a possível responsabilidade direta do indivíduo pela sua situação de privação e miséria, afirmam os Espíritos que “muitas vezes a sociedade é a causa principal dessas faltas”, ou seja, dos erros que levam esses indivíduos ao sofrimento. Em nota à questão 930, o Codificador endossa essa posição ao reconhecer que “muitas vezes, suas próprias faltas resultam do meio onde se acha colocado”.ix
Nessa direção, também fundamental é relembrar que, segundo os Espíritos, vivemos ainda em um mundo de provas e expiações.x De forma geral, esse é o “meio” em que estamos colocados. Nessa condição, todas as experiências difíceis têm por causa equívocos cometidos no passado (nessa vida física e/ou nas anteriores) ou escolhas prévias à encarnação, seja de “grandes acontecimentos”, seja de ambientes, oportunidades e “gêneros das provações” em que somos convidados à prática das leis divinas.xi Logo, mesmo situações de aparente injustiça, em que somos “vítimas” da sociedade, encaixam-se na perfeita Justiça Divina. Na forma como reagimos a elas está nossa aproximação ou nosso afastamento do “reino de Deus”, da condição de felicidade possível na Terra.xii
Entretanto, seja por responsabilidade direta do indivíduo (em escolhas na vida física atual), seja por responsabilidade indireta (em escolhas ou programações prévias, que incluem a vivência numa sociedade imperfeita), nenhum sofrimento deve estar imune à nossa preocupação. Além de não termos instrumentos de avaliação da condição moral e da programação espiritual de cada um, a explicação espírita dos problemas humanos não é justificativa para inação: é busca de compreensão coerente do funcionamento das leis de Deus, entendimento otimista da dor como mecanismo pedagógico e motivação eficaz das nossas ações na direção da mitigação do sofrimento humano. O contato com o sofrimento alheio é mesmo oportunidade para o necessário exercício da caridade.
Nesse sentido, bem resume a Espiritualidade:
Sim, vossas provas devem seguir o curso que Deus lhes traçou, mas conheceis esse curso? Sabeis até onde elas devem ir e se o vosso Pai misericordioso não terá dito ao sofrimento de tal ou tal de vossos irmãos: “Não irás mais longe”? Sabeis se a providência não vos escolheu, não como instrumento de suplício para agravar os sofrimentos do culpado, mas como bálsamo de consolação que deve cicatrizar as chagas que a sua justiça abrirá? Não digais, pois, quando virdes atingido um dos vossos irmãos: “É a justiça de Deus, e importa que siga seu curso”. Dizei, ao contrário: “Vejamos que meios o Pai misericordioso me pôs ao alcance para suavizar o sofrimento do meu irmão”. Vejamos se as minhas consolações morais, o meu amparo material ou os meus conselhos não poderão ajudá-lo a vencer essa prova com mais energia, paciência e resignação. Vejamos mesmo se Deus não pôs em minhas mãos os meios de fazer que cesse esse sofrimento; se não me deu, também como prova, como expiação talvez, deter o mal e substituí-lo pela paz [grifos nossos].xiii
Logo, a partir dos pressupostos acima:
- Sempre devemos buscar meios de mitigar o sofrimento material dos que estão em situação de vulnerabilidade social;
- Os meios para isso não são óbvios e o Espiritismo, por si só, não os determina. No campo social, por exemplo, devem ser construídos a partir do diálogo com a política, o poder público, o setor privado, as religiões, o terceiro setor, as ciências sociais, econômicas etc.;
- Podemos, sim, identificar, por estatísticas ou experiência própria, características comuns em determinados grupos sociais, como menor ou maior grau de instrução, menor ou maior acesso à saúde, dentre outras, que nortearão nossas ações. Por exemplo, o uso de textos complexos na orientação de grupos de baixa instrução pode não ser produtivo. Não devemos, porém, rotulá-los sem conhecimento;
- Afinal, cada indivíduo ou pequeno grupo tem suas características próprias que só podem ser percebidas a partir do diálogo, da proximidade (não pela internet!). Pelas escolhas prévias das provas e pelo caminhar de cada um nessa existência, os Espíritos reúnem particularidades que devem ser consideradas em nossa decisão de ajudá-los;
- Por fim, somos responsáveis pela melhoria dessa entidade abstrata chamada “sociedade”, em que cada vez teremos menos indivíduos com necessidades expiatórias e mais com disposição à justiça e à caridade.
i SILVA, Daniel Salomão. Acolhendo famílias em situação de vulnerabilidade social em grupos de estudo. In: O Médium, nº 748, pp. 4 a 8, Juiz de Fora: AME/JF, 2022 [acesso em https://omedium.amejf.org.br/2022/11/13/acolhendo-familias-em-situacao-de-vulnerabilidade-social-em-grupos-de-estudo/].
ii SILVA, Daniel Salomão. Cursos profissionalizantes como Promoção Social. In: O Médium, nº 757, pp. 4 a 7, Juiz de Fora: AME/JF, 2024 [https://omedium.amejf.org.br/2024/05/19/cursos-profissionalizantes-como-promocao-social/].
iii KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2010, c. 13.
iv Idem, c. 13, i. 9.
v KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2010, q. 804.
vi Idem, q. 811.
vii Idem, q. 707.
viii Idem.
ix Idem, q. 930.
x KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2010, c. 3.
xi KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 2010, q. 258 a 273.
xii KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2010, c. 5, i. 18 e 20.
xiii Idem, i. 27.