Kardec e a geração espontânea: um equívoco espírita?
Daniel Salomão
A pressa em rejeitar ou em aceitar preceitos atribuídos ao Espiritismo, as leituras parciais ou retiradas de contexto, bem como o desconhecimento de seus métodos de elaboração, organizados por Allan Kardec, podem nos conduzir a conclusões ingênuas. Nesse texto, discutimos a posição pessoal equivocada do Codificador sobre certos aspectos da origem dos seres vivos junto a sua postura madura e coerente de não a atribuir ao Espiritismo.
Em O Livro dos Espíritos, na discussão sobre a formação dos seres vivos, podemos observar certo alinhamento às hipóteses mais aceitas atualmente sobre a origem da vida. Segundo a obra, os elementos orgânicos estavam “em estado de fluido no espaço, no meio dos Espíritos, ou em outros planetas, esperando a formação da Terra para começarem nova existência em um novo globo”.i Esse entendimento se aproxima da teoria da panspermia, ainda em debate, que postula a existência de vida em outras partes do Universo, a qual poderia ser transportada pelo espaço, por exemplo, através de meteoritos.
Contudo, essa hipótese não explica propriamente a origem da vida, mas apenas a localiza fora da Terra, como também entende Kardec.ii Já no planeta, esses elementos ou princípios orgânicos “se congregaram assim que cessou a força que os mantinha afastados”, dando origem aos germens de todos os seres vivos, que apenas “aguardavam o momento favorável para se desenvolverem”.iii Essa compreensão também se aproxima de hipótese atual, que reconhece a ação de descargas elétricas e radiação solar sobre elementos presentes na atmosfera e nos oceanos primitivos como causa das primeiras moléculas orgânicas, bases dos primeiros organismos unicelulares.
Todavia, em meio às discussões ainda incipientes sobre evolução dos seres vivos, as perguntas de Kardec, e mesmo algumas respostas, parecem indicar a crença na ocorrência desse mesmo processo na origem dos seres vivos mais complexos, inclusive nos dias atuais. Concordando com o Codificador, os Espíritos indicam que ainda há seres que nascem espontaneamente, mas a partir de um gérmen primitivo em estado inerte, que, como as sementes das plantas, permanecem latentes “até o momento propício à eclosão de cada espécie; então, os seres de cada espécie se reuniram e se multiplicaram”.iv Afinal, “os tecidos do homem e dos animais não contêm os germens de uma multidão de vermes que só esperam, para desabrochar, a fermentação pútrida necessária à sua existência”?v Essa posição reflete a superada teoria da abiogênese, ainda forte no século XIX,vi que admitia a origem de determinados seres vivos diretamente a partir da matéria bruta, sem processo reprodutivo, como as moscas da carne podre, bem como os “vermes” a que se referem os Espíritos. Porém, seres tidos por “rudimentares” por Kardec, bem como todos os outros, são atualmente reconhecidos em sua complexidade e têm suas formas reprodutivas bem definidas, o que impede a possibilidade de origem abiogênica. Logo, apenas na “origem da vida”, entre seres ainda mais simples, a abiogênese pode ter ocorrido.
Interessante é que Kardec, ao partir da premissa de que os homens em algum momento também nasceram espontaneamente (abiogenicamente), não recebe essa confirmação dos Espíritos, que afirmam apenas que, “uma vez espalhados sobre a Terra, absorveram em si mesmos os elementos necessários à sua formação, para os transmitir segundo as leis da reprodução”, como também as diferentes espécies de seres vivos.vii Logo, não excluem o processo evolutivo biológico como causa, nem determinam uma origem humana abiogênica, a partir de algum gérmen ou “semente” que se tornasse imediatamente um ser humano. Nesse sentido, pensamos que apenas um entendimento de “gérmen” como “agente causador”, uma espécie de princípio ou potencial, pode fazer sentido face às conclusões científicas modernas. Em verdade, ainda que Kardec aponte a existência de duas teorias dominantes sobre a origem do Espírito “humano”, quanto à origem dos corpos algumas respostas em O Livro dos Espíritos indicam a concordância dos Espíritos com a teoria da evolução biológica das espécies,viii que, segundo o Codificador, inclui o ser humano, “evidentemente, um elo da cadeia dos seres vivos”.ix Essa discussão se desenvolve anos depois na obra A Gênese, onde novamente parece simpatizar com a ideia de que os corpos humanos e dos demais seres vivos são fruto de um processo evolutivo.x
Nessa obra, Kardec registra o debate existente entre os que defendiam a abiogênese e os que entendiam a reprodução como único mecanismo de geração dos seres vivos, a biogênese.xi Importante é salientar que as investigações sobre genética e hereditariedade ainda amadureciam e que as descobertas da biologia molecular apareceriam apenas décadas depois. Para ele, contudo, “o princípio da geração espontânea evidentemente só se pode aplicar aos seres das ordens mais inferiores dos reinos animal e vegetal, àqueles nos quais a vida começa a despontar e cujo organismo, relativamente simples, é, de certo modo, rudimentar”.xii Ou seja, ainda defende equivocamente a geração espontânea de determinados seres vivos, como “o musgo, o líquen, o zoófito, o infusório, os vermes intestinais”, bem como de outros microrganismos ainda classificados entre os reinos vegetal e animal (futuramente classificados entre os reinos fungi, protista e monera). Todavia, já começa a ensaiar uma abordagem mais hipotética.xiii
Em texto publicado meses depois na Revista Espírita, confirma essa posição como uma “convicção pessoal”. Contudo, reconhece-a ainda como hipótese ainda não consensual entre os pesquisadores e fora do âmbito do Espiritismo, “onde nada lhe cabe resolver de forma definitiva naquilo não é essencialmente de sua competência”.xiv Ademais, mesmo entre os Espíritos, não encontra “assentimento da maioria”, o que é fundamental no método de avaliação kardequiano.xv Em verdade, algo importante na análise dessa discussão é a exposição clara de sua postura perante conclusões científicas, ideias pessoais ou dos Espíritos:
Pelo fato do Espiritismo assimilar todas as ideias progressistas, não se segue que ele se faça campeão cego de todas as concepções novas, por mais sedutoras que se apresentem à primeira vista, com o risco de mais tarde receber um desmentido da experiência e de se dar ao ridículo de haver patrocinado uma obra inviável. Se ele não se pronuncia abertamente sobre certas questões controvertidas, (…) é porque ele não aceita as ideias novas, mesmo as que lhe parecem justas, inicialmente sob reserva, para efeito de futura ponderação, e de maneira definitiva apenas quando chegaram ao estado de verdades reconhecidas.xvi
Nesse processo, parece-nos que há certo desenvolvimento da posição espírita (ou talvez apenas kardequiana) entre O Livro dos Espíritos e A Gênese, complementada pela Revista Espírita. Partindo de uma postura mais convicta, embasada pelos próprios Espíritos, o Codificador termina por reconhecê-la como individual, ainda carente de segurança científica e de consenso espiritual. Acreditamos que, dada sua forma de pensar exposta acima, se Kardec tivesse acesso ao conhecimento que temos hoje, reduziria sua convicção a esses seres e épocas primordiais, o que teria reflexo em suas perguntas, conclusões e mesmo na organização das respostas dos Espíritos.
Concluindo, importante é sabermos separar a posição de Kardec da posição do Espiritismo, como ele mesmo aponta acima. Entendê-lo como alguém infalível, em verdade, é discordar da própria opinião do Codificador, que não se julga “profeta ou messias”xvii e entende que a Doutrina acolherá alguma ideia sua “se ela for justa e a rejeitará se for falsa”.xviii Além disso, tendo a revelação espírita um duplo caráter, divino e humano, depende também do nosso trabalho para sua elaboração,xix não cabendo aos Espíritos “revelar o que o homem pode descobrir por si mesmo”,xx o que também inclui a pesquisa acadêmica. Como ainda ocorrerá muitas vezes, do esforço científico e das revelações espirituais seguirão novas conclusões das quais nem fazemos ideia no presente.
i KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2. ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, q. 45.
ii Idem, q. 45, nota.
iii Idem, q. 44.
iv Idem, q. 44.
v Idem, q. 46.
vi Importante é salientar que a própria FEB chama atenção para isso em notas apropriadas nas obras que citamos.
vii KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2. ed., Rio de Janeiro: FEB, 2010, q. 49.
viii Idem, q. 604, 607.
ix Idem, q. 613, nota.
x KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2009, c. 10, i. 24 a 29; c. 11, i. 15 e 16.
xi Idem, c. 10, i. 20.
xii Idem, c. 10, i. 21 e 25; cf. KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos, ano XI: 1868. Catanduva, SP: EDICEL, 2018, julho, p. 236.
xiii Idem, c. 10, i. 22.
xiv KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos, ano XI: 1868. Catanduva, SP: EDICEL, 2018, julho, p. 234.
xv Idem, p. 235.
xvi Idem, p. 234; cf. KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2009, c. 1, i. 55.
xvii KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2009, c. 1, i. 45, nota.
xviii KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos, ano XI: 1868. Catanduva, SP: EDICEL, 2018, julho, p. 235.
xix KARDEC, Allan. A Gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2009, c. 1, i. 13.
xx Idem, c. 1, i. 50