Economia do Evangelho

Claudio Fajardo

…e ao que quiser pleitear contigo e tirar-te a vestimenta, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.1 Por isso, vos digo: não andeis cuidadosos quanto à vossa vida,pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo, mais do que a vestimenta? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pequena fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos ou que beberemos ou com que nos vestiremos? (Porque todas essas coisas os gentios procuram.) Decerto, vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas essas coisas; Mas buscai primeiro o Reino de Deus, e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.2

Ao analisarmos os versículos mencionados no texto de Mateus e no capítulo 12 de Lucas, a partir do versículo 22, percebemos que não podemos, em sã consciência, afirmar que esta é a realidade vivida em nosso mundo. Segundo a psicologia moderna, Jesus pode ser visto como um utópico ou, para os mais radicais, um irresponsável.

Essas palavras podem parecer duras, mas enquanto poucos têm a coragem de dizê-las, a maioria se comporta conforme os costumes mundanos, contrariando os versos citados e supervalorizando conquistas transitórias.

Quem de nós, ao ensinar nossos filhos, diria: “Querido, se alguém na escola pegar sua caneta, dê também a borracha e o caderno”, ou ainda, “Não se preocupe com o dia de amanhã, pois Deus proverá tudo o que você precisa…”?

Se hoje pensamos assim, o que dizer daqueles que acompanharam o Mestre há dois milênios?

Dito isso, devemos nos perguntar: estaria Jesus errado e toda a filosofia do Evangelho seria um engodo?

O homem menos evoluído pode pensar assim, mas essa não é a realidade que temos exposto, nem a conclusão a que nossos estudos nos levaram. Jesus é o guia mais perfeito que a humanidade já teve, o Espírito mais evoluído que já pisou em nosso pequeno planeta.

Nele, a evolução já se completou e sua integração na Unidade Divina é uma realidade.

Como resolver essa aparente contradição?

Para compreendermos claramente o assunto, é preciso primeiro deduzir de seu Evangelho que ele veio à Terra em missão, enviado pelo Pai, como ele repetiu várias vezes. E qual seria seu principal objetivo?

Não podemos deixar de expressar nossa opinião pessoal, assumindo a responsabilidade pelo que escrevemos. Em nossa visão, a maior missão de Cristo é educar a humanidade, e é preciso entender claramente o que isso significa. Só a educação leva à salvação pregada pelas religiões. O conceito de evolução aceito pela ciência não pode ser ignorado, mas deve ser ampliado para incluir uma lei que conduz o ser criado da matéria ao espírito, ou, usando uma

expressão dos espíritos superiores, do átomo ao anjo.

Cristo tinha a missão de levar a criatura à sua espiritualização, que pode ser entendida também como educação moral e espiritual.

Sendo assim, é preciso reconhecer outra missão igualmente importante do Senhor: revelar o instrumento mais perfeito e eficaz de todo o processo educacional, a Lei de Deus.

A Lei de Deus, é o Pensamento Diretor do Criador, foi claramente

demonstrada por Jesus. O evangelista do Quarto Evangelho não errou ao dizer que Nele, isto é, no Cristo, a Lei se corporificou, e que Nele sentimos toda a sua substância.3

Jesus não se preocupava em fazer do homem um detentor de mais ou menos posses, nem em avaliar se ele comia isto ou aquilo, ou se sofria de alguma enfermidade física. O que ele expressava claramente era a necessidade de o homem se tornar sempre melhor, e que além de fazer o bem, devia tornar-se bom.

Seus ensinamentos devem ser sempre analisados em espírito e devem conduzir o homem a posições audaciosas de avanço nas questões espirituais. Assim, quando nos for pedido que caminhemos um passo, devemos avançar dois; se nos for tirado algo importante para nosso bem-estar físico, devemos dar o exemplo de que o importante é o ganho espiritual e que o desapego é necessário.

Ampliemos ainda mais a lição. Caminhar duas milhas não é apenas tornar-se companheiro, é fazer bem-feito aquilo a que nos propomos. O cristão, se seguisse os ensinamentos do Senhor, deveria se diferenciar pela qualidade do que faz. Jesus foi o primeiro educador da humanidade a falar em “qualidade total”, pois através de seus ensinamentos aprendemos que tudo deve ser bem-feito, realizado com carinho e afeto, e a qualidade é uma consequência natural de tudo que for assim realizado.

Mas ainda não tocamos no ponto fundamental: como conciliar as lições do monte com a vida que vivemos? Como, no mundo de hoje, ser um elemento evangelizado, vivendo suas lições nas relações sociais conforme necessário?

Como dissemos anteriormente, é necessário compreender que Jesus falava para o espírito imortal e não para a personalidade transitória. Seu objetivo era reconduzir-nos ao Reino de Deus, de onde nunca deveríamos ter saído.

Vivemos em um mundo invertido, onde a realidade é uma distorção do que é verdadeiramente real. A ilusão e a falsa aparência são os maiores obstáculos à evolução da humanidade. Não foi por outro motivo que o apóstolo Paulo afirmou:

“Ninguém se engane a si mesmo: se alguém dentre vós se considera sábio neste mundo, faça-se louco para ser sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus.”4

­­­­­­­­­­Jesus, o maior Sábio entre todos, sabia que a Economia da Vida não é regida pelo princípio de dar para depois receber, e muito menos pelo de receber para depois dar. A economia, regulamentada pela Lei de Deus, administra todos os eventos, retornando a cada um de forma determinista o que foi lançado à vida no momento de seu livre arbítrio.

Conhecedor desse processo, Jesus não se preocupava com o transitório e tinha um objetivo mais amplo. Ele ensinava que na vida verdadeira há justiça de acordo com o merecimento. Assim, se cada um oferecer o que tem de melhor, nunca lhe faltará nada, pois serão fartos todos os que vivenciarem a justiça.

A economia do nosso mundo é regida pelo sistema que valoriza quem consegue acumular mais. Aqui, ainda prevalece a lei do mais forte e da astúcia. Preocupado em não perder o que já conquistou, o homem quer possuir cada vez mais e cria recursos para manter suas posses. Assim, gasta parte do seu tempo preocupado em ganhar, e outra parte ainda maior, preocupado em como manter o que já ganhou, pois o assalto daqueles que pensam em conquistar tudo pela força ainda é uma realidade em nosso meio.

Jesus nos oferece uma vida diferente, distante de tudo isso. Por isso, pôde afirmar com segurança que seu fardo era leve e seu jugo suave. Bastaria que tivéssemos um pouco de fé e analisássemos as coisas com um mínimo de bom senso.

Se Deus é a Perfeição, a justiça e a misericórdia são Seus atributos básicos – e isso afirmamos com todas as letras – como pode, em Sua Perfeição, o Criador esquecer de uma questão tão básica como promover condições para que todos os que estejam quites com a sua consciência se alimentem e se vistam com o necessário? A vida é essencialmente didática e, se ela tem um projeto para cada um de nós, não pode deixar de suprir cada um com o necessário para o cumprimento desse propósito. Se assim não for, há uma falha na vida, e isso, convenhamos, é impossível, pois o Diretor da vida é Deus, a Inteligência Suprema do Universo.

Podemos chegar a uma primeira conclusão dessas reflexões. Se Jesus é Senhor do que diz e nos mostra que a Providência, a imanência do Transcendente, nos socorre sempre, conduzindo-nos a estados cada vez mais próximos de nossa realidade última, então, se agimos de modo diferente e sofremos com ansiedade e preocupações, é porque nos falta o sentimento básico diante da vida: a fé.

Ou seja, a falta de fé, em outras palavras, a incredulidade, está na raiz de todos os transtornos que geram sofrimento para a alma. Vale lembrar que a falta de fé é uma realidade antiga em nossa história evolutiva. Especialistas apontam essa falta como uma das principais causas da depressão, que, apesar de antiga, é uma das chagas do nosso tempo atual.

Segundo “O Livro dos Espíritos”, em suas questões de 120 a 127, alguns espíritos permaneceram no bem desde o princípio e não conheceram o mal em si mesmos. Disto, depreendemos que, em algum momento de nossa vida, nos distanciamos do Bem em busca de aventuras que nos pareciam mais satisfatórias. A partir daí, conhecemos a realidade da dor, pois a Lei, que é sábia, previa essa possibilidade e, pelos mecanismos de causa e efeito, realiza em nós a correção do caminho.

Quando Cristo nos diz ser o caminho que melhor nos leva à verdade e à vida, ele nos alerta para a possibilidade de existirem outros caminhos. Foi através dessa escolha indevida que geramos todas as dores oriundas da dualidade. Por que houve esse distanciamento da Lei? Por que nos enveredamos pelo caminho do erro? A resposta é a mesma: falta de fé. Por não admitirmos que o plano do Criador é o melhor para cada um de nós, ainda hoje somos atraídos pelo erro e, assim, conhecemos novas dores e carências.

Essas são, sem dúvida, as origens de todo tipo de angústia, tristeza, ansiedade e preocupações. Se, como os lírios do campo ou as aves do céu, tivéssemos aceitado desde o princípio nossa posição dentro da hierarquia universal e cumprido nosso papel diante da vida, muitas dores teriam sido evitadas.

Mas Deus é Pai e Sua Misericórdia é Infinita. De tempos em tempos, Ele permite que enviados venham diretamente de Seu reino até nós e nos ensinem o caminho de retorno à Sua segurança e felicidade eterna.

Jesus foi o maior que veio até nós. Confiemos em Suas palavras. Ele é o Verbo corporificado, Seu jugo é suave e Seu fardo é leve. Amemo-nos como Ele nos amou e ensinou, e seremos reconhecidos como Seus discípulos, merecedores da maior promoção, que é ouvir Dele próprio:

Eu não sou teu mestre, porque tu bebeste da Fonte borbulhante que te ofereci e nela te inebriaste.”5

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1 Mateus, 5: 40 e 41
2 Mateus, 6: 25 a 34
3 João, 1: 14 e 17
4 1 Coríntios, 3: 18 e 19
5 Evangelho de Tomé, Logion 13

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